Os Comandos e o 25 de Novembro

Em 25 de novembro comemoram-se 50 anos da data definidora da liberdade em Portugal.

Por iniciativa do Dr. Jerónimo Fernandes, vai ser publicado o livro “50 vezes 25 de Novembro – 31 olhares sobre o caminho da liberdade”, com textos de 31 autores, entre os quais, Jaime Nogueira Pinto, Isabel Ponce de Leão, Joana Amaral Dias, Nuno Lebreiro, Ricardo Marchi, Rui Moreira, Vasco Rato e outros. O prefácio é de Pedro Passos Coelho e o livro é apresentado por Rui Ramos.

A minha colaboração refere especialmente o papel dos Comandos, e deixo aqui um pequeno resumo da minha visão sobre aqueles meses em que o país pareceu sair de si, como um homem febril que já não reconhece o próprio reflexo.

O Portugal de 1975 é um daqueles momentos em que uma nação é projectada para fora dos seus hábitos seculares, atordoada pela súbita liberdade, cercada por ideologias importadas e empurrada para um abismo que poucos viam, mas muitos pressentiam.

O meu texto percorre esse tempo vertiginoso, do “Verão Quente” ao 25 de novembro, como quem revisita um pesadelo com olhos abertos. Revisito-o com o desconforto de quem entra novamente num quarto onde aconteceu algo mau, mas entra na mesma, curioso, cético, meio incrédulo com o que viveu.

Eu era apenas um adolescente a tropeçar na realidade da guerra no interior de Angola, empurrado de um lugar para o outro pelo cheiro da pólvora e pela pressa dos outros. Lembro-me de Malange como se fosse uma cidade fantasma: tiroteios sem aviso, ruas onde o caos tinha tomado posse da luz do dia. Depois vieram meses de fuga em cima de camiões poeirentos, noites passadas numa sala de aulas de Nova Lisboa, janelas partidas, espaço dividido entre dezenas de pessoas, e refeições improvisadas, sempre mais escassas do que o apetite.

No fim, quando o país parecia um mapa rasgado, acabei por cair em Lisboa a bordo de um 707 da Força Aérea, mais um retornado entre tantos, trazido à pressa de um continente que nos cuspia para fora. A minha história é apenas uma entre milhares, e talvez um dia a conte inteira. Hoje, basta este fragmento.

Voltando ao livro, o fio condutor da minha colaboração no livre é simples: ou o país se deixava arrastar pelo delírio revolucionário de minorias barulhentas, ou era salvo pelo sangue-frio de alguns militares que decidiram estancar a deriva. No centro desta história, como eixo de gravidade moral, está o Regimento de Comandos e a figura de Jaime Neves.

Depois do 11 de março, neutralizado Spínola, o palco ficou livre para o grande delírio. O Governo de Vasco Gonçalves, com o PCP nos bastidores, queria transformar Portugal num laboratório soviético à beira do Atlântico.

O país encheu-se de siglas, comissões, plenários, frentes de luta, sindicatos. Nacionalizavam-se bancos e jornais ao mesmo ritmo com que se imprimiam panfletos. Fábricas e herdades eram ocupadas no intervalo da bica. A realidade, prosaica combinação de pão, emprego e contas para pagar, era tratada como um pormenor burguês.

Lisboa vivia numa fase maníaca. A rádio, a televisão e a imprensa, em larga medida controladas por militantes comunistas ou afins, repetiam a liturgia do poder popular e do “povo-MFA”. Os plenários revolucionários cruzavam-se com aquele Portugal que só queria saber se haveria bacalhau no Natal.

Este país profundo observava com cepticismo. Não queria sovietes, nem tribunais populares: queria trabalho, futuro, escola para os filhos, alguma ordem. Havia uma distância quase metafísica entre o “povo” invocado nas palavras de ordem e o povo real, concreto, que rezava na igreja e desconfiava da baderna permanente.

Confrontavam-se três grupos militares:

Estes três grupos representavam........

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