A parada dos vencidos

Durante anos, o desfile do Dia da Vitória foi a maquilhagem de gala do putinismo. Na Praça Vermelha, entre carros de combate, mísseis, generais emproados e convidados estrangeiros em pode impressionada, Moscovo encenou a velha ilusão imperial: a Rússia eterna, invencível, temida, indispensável. Uma sessão anual de ilusionismo político, com banda militar, bandeiras vermelhas e saudades de Estaline travestidas de comemoração histórica.

Este ano, porém, a maquilhagem falhou.

Houve desfile, houve soldados, houve discurso, houve a habitual prosódia soviética aquecida no microondas. Mas faltou a convicção. E quando a convicção desaparece, o espectáculo passa a ser apenas confissão. Putin apareceu para proclamar, como sempre, que a Rússia vencerá. O problema é que já ninguém consegue perceber exactamente onde, como, quando ou em quê. Chamou heróis aos homens enviados para morrer na Ucrânia, acusou a NATO de agressão e repetiu o catálogo inteiro da vitimização imperial. O costume. Invade-se um país, arrasam-se cidades, deportam-se crianças, anexam-se territórios e, no fim, protesta-se contra a hostilidade do mundo. É a velha escola russa de partir a janela do vizinho e queixar-se das correntes de ar.

Desta vez a encenação decorreu sob a sombra da Ucrânia. A internet foi restringida, a segurança multiplicada, o aparato reduzido ao mínimo que permitisse fugir depressa da Praca. A Rússia que prometeu tomar Kyev em três dias mobilizou-se para impedir que drones ucranianos estragassem a liturgia sagrada da Praça Vermelha. O país que, segundo a propaganda do Kremlin, nem sequer existe, tornou-se suficientemente real para condicionar a festa maior do regime. Há ironias que dispensam comentário, embora o Kremlin continue a fornecê-lo em excesso.

Putin não podia cancelar o desfile. Seria........

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