O Erro de Pedro Passos Coelho
Nota ao leitor: o texto que se segue é um exercício de hipótese. Imagina-se que Pedro Passos Coelho, depois de ler A Constituição da Liberdade de Friedrich Hayek, escreve na primeira pessoa um balanço dos seus anos de governo. Nenhuma das palavras abaixo lhe pertence; pertencem ao argumento do autor.
Confesso que demorei demasiado tempo a ler o livro que devia ter lido antes de governar. A Constituição da Liberdade não é um manual de política económica, mas um tratado sobre o poder e sobre os limites que um homem livre lhe deve impor, sobretudo quando o poder se concentra nas suas próprias mãos. E foi precisamente aí que falhei. Não falhei por ter querido reformar o Estado português. Falhei porque, podendo fazê-lo, fiz outra coisa: sufoquei-o sem o emagrecer, agravei-o sem o reformar, e chamei a isso, por vaidade ou por necessidade, uma obra liberal. Fiquei a léguas de o conseguir.
Em 2011 recebi um país no estado em que uma nação chega quando deixou de poder pagar o que prometeu por ter caído nas mãos de um malfeitor. A troika não foi a minha escolha; foi a fatura de décadas de promessas de governantes caídos na tentação de que o Estado todo poderoso pode resolver os problemas nacionais. Mas dentro dessa fatura havia uma escolha que era inteiramente minha, e é essa que hoje me pesa. Eu tinha diante de mim duas vias. Uma conduzia à redução verdadeira do Estadão: menos funções, menos perímetro, menos peso sobre a economia, e por consequência, menos impostos sobre quem produz. A outra conduzia à asfixia: manter o Estado inteiro, intocado na sua estrutura, e estrangulá-lo financeiramente até ele caber no número que Bruxelas exigia. Escolhi a segunda, que, com a clareza que só agora tenho, percebo ser o exato oposto do que dizia querer.
O primeiro erro: confundir austeridade com reforma
Deixámos que esse grande Guru das finanças, Vítor Gaspar, fizesse aquilo que um governo desesperado faz quando não tem coragem de cortar: aumentar brutalmente os impostos, e com isso a receita, enchendo os cofres do Estado, sem mexer numa única engrenagem na máquina que o esvazia. Pedi sacrifício aos portugueses para sustentar um Estado que não tive a ousadia de restruturar. Hayek chamaria a isto o pior dos mundos: o cidadão paga mais, mas continua a sustentar exatamente a mesma estrutura. Austeridade fiscal não é liberalismo, e no fundo é a forma conservadora de gerir um Estado socialista mantendo-o de pé à custa de quem o sustenta.
O segundo erro: o........
