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Maio em Nova York

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08.06.2019

Dezoito horas de Wagner no ciclo Der Ring des Nibelungen (O Anel do Nibelungo) pode ser um daqueles projectos de vida, “uma vez na vida”, para um amador de ópera medianamente esclarecido.

Na complexidade do libretto das quatro óperas do Ring, Das Rheingold (O Ouro do Reno), Die Walküre (As Valquírias), Siegfried, e Götterdämmerung (O Crepúsculo dos Deuses), desenrola-se uma wagneriana visão da humanidade, dramática e ambígua, que tem suscitado infinitas interpretações filosóficas, centenas de abordagens em cena, interpretações inesquecíveis de divos e divas nos grandes palcos operáticos do mundo. “Uma alegoria da luta de classes? O poder corrupto? A destruição ambiental? Uma reflexão absurda sobre a liderança nihilista?”, são estas questões que um crítico do New York Times se colocou nesta ocasião sobre o Ring.

Estas perguntas são pertinentes para alguém que, como o autor destas linhas, tenha tido uma adolescência influenciada pelas lendas do Rio Reno, dos seus tesouros, do seu ouro maldito, das Valquírias, do poderoso Wotan, das mitologias épicas, do germanismo identitário. Estas quatro óperas que preenchem o Anel do Nibelungo fazem, muitas décadas depois, regressar ao maravilhoso, ao imaginário, e a um futuro presente desenhado num passado mais que perfeito, revestido no fantástico do sonho. Uma experiência transcendente, acabando por ser um trip embriagador e colossal.

Bem conhecidos para quem frequenta as transmissões ao vivo na Gulbenkian, os 3.800 lugares da Metropolitan Opera no Lincoln Centre de Nova York, para as quatro óperas do Ring apresentadas na semana de 6 de Maio de 2019, esgotaram em Outubro do ano passado. Dia após dia foram criadas cumplicidades com os vizinhos de lugar, conversinhas de intervalo, segredos, transmissão de impressões fortes, três dias de aplausos finais de quinze minutos, de gritos entusiastas saídos de muitos wagnerianos enlouquecidos, chamadas sucessivas ao palco, etc. No quarto dia, o do Crepúsculo, chegou-se no final quase aos vinte minutos de entusiasmo incontrolado, com uma produção que gerou polémica na crítica, mas nenhuma detectada entre um público sabedor.

O Ring foi concebido por Richard Wagner para ser visto de seguida, na sua sequência original. Estreado em 1876 em Bayreuth (e em 1889 em Nova York), nesta produção de 2019 desenrola-se no palco do Met numa “máquina” que pesa 44 toneladas, uns 24 gigantescos sissós colocados a toda a largura do palco que, quando na horizontal e justapostos em paralelo numa das muitas variantes em que se balouça, mais se assemelham a um enorme teclado de piano monocolor. Movimentam-se lado a lado de forma oscilada e imaginativa num eixo que vai variando de altura e de posição, num conjunto onde cenário e actores ficam banhados por uma luminotecnia invulgarmente imaginativa.

Toda esta grandiosidade da produção operática do Met, com........

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