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O custo de ser português

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01.01.2020

Todos sabemos o que dizer do gestor português. A título de resumo, deixem-me adiantar que “os estrangeiros trabalham menos horas e produzem mais”, “quando vamos lá para fora somos os melhores, só cá é que não” e “ganhamos uma miséria comparado com os estrangeiros”. Posso-me ter esquecido de alguma, mas acho que o fundamental está aqui.

Não consigo dizer em que fase da nossa história se considerou que ser gestor é algo entre o alquimista e o físico nuclear. Existe uma espécie de magia de natureza científica que faz de um gestor um sujeito capaz dos maiores milagres e das maiores tragédias. Se uma empresa entra em colapso porque o produto não presta ou se tornou obsoleto, as causas nunca são essas, mas antes a “manifesta má gestão”. O gestor não soube tornar a empresa moderna, não soube contrariar a tendência descendente das vendas e, mais vulgar, não soube tornar a empresa mais produtiva. Nada disto aconteceria se o gestor fosse bom, mesmo que a empresa venda Tamagotchis a ceguinhos.

E o oposto também é verdade. O sujeito que gere uma empresa monopolista é um mago, um deus sobre a terra que consegue a maravilha de manter os proveitos acima dos custos, apesar de tanto uns como outros serem definidos pelo próprio. E vai correndo pelas páginas dos jornais até um qualquer evento que o faz descer no ranking, podendo cair na categoria de “manifestamente mau gestor”.

O facto de o leitor receber menos que o seu par estrangeiro, mesmo trabalhando mais (pelo menos é o que dizem as “estatísticas”) tem um culpado unanimemente declarado: o gestor lusitano. O problema não é definitivamente seu! Só pode ser, com efeito, de quem o manda fazer coisas, sem modernizar a empresa, sem contrariar a tendência descendente das vendas e sem saber tornar a empresa mais produtiva, para a resolução do qual o meu caro tem a sugestão de aumentar o seu salário. A lógica parece ser imbatível, não fosse um pequeno detalhe daqueles que não deixamos que estrague a história: é que o gestor também é um trabalhador que, comparado com o estrangeiro, ganha menos trabalhando mais e quando vai lá para fora também é........

© Observador