O Atlântico não espera por quem hesita |
Durante séculos, Portugal olhou para o mar e viu oportunidade. Hoje, olha para o mesmo mar e vê paisagem. Talvez seja esse um dos erros estratégicos mais persistentes da nossa democracia: termos transformado uma vantagem geográfica extraordinária numa espécie de decoração nacional.
O mar está em todo o lado no discurso português. Está nos manuais escolares, nos monumentos, nos discursos oficiais, nos cartazes turísticos, nas metáforas políticas, nos brindes de circunstância. Falamos dele como identidade, como memória, como vocação, como destino. Mas raramente falamos dele como poder. E, quando o fazemos, é quase sempre em abstracto, como se bastasse evocar a palavra “Atlântico” para que dela resultasse uma estratégia.
O mundo mudou. Os oceanos voltaram a ser espaços de disputa entre grandes potências. Não da forma que conhecemos dos séculos XV e XVI, com caravelas, especiarias e fortalezas costeiras, mas com cabos submarinos, dados, energia, vigilância subaquática, bases militares, portos, sensores, navios de investigação, rotas comerciais e influência política. O que antes era disputa por passagem é hoje disputa por dependência. Quem controla infraestruturas controla vulnerabilidades. Quem conhece o fundo do mar conhece os nervos da economia digital. Quem está presente, conta.
E Portugal está no meio de tudo isto. Quer queira, quer não.
Temos a segunda maior Zona Económica Exclusiva da União Europeia, apenas atrás da França, que beneficia da extensão dos seus territórios ultramarinos. Temos os Açores no centro geométrico do Atlântico Norte. Temos a Madeira a projectar soberania para sul. Temos portos atlânticos, ligações históricas às Américas e a África, uma língua presente nos dois lados do oceano e uma posição natural entre a Europa, o Atlântico Sul e o espaço euro-americano. Poucos países europeus têm uma geografia tão útil. Menos ainda parecem tão pouco interessados em a usar.
A questão, portanto, não é saber se Portugal é um país atlântico. Isso está resolvido pela geografia. A questão é saber se Portugal se comporta como um país atlântico. E aí a resposta é menos confortável.
A nossa Zona Económica Exclusiva tem cerca de 1,7 milhões de quilómetros quadrados. A eventual extensão da plataforma continental poderá elevar a área marítima sob jurisdição nacional para mais de quatro milhões de quilómetros quadrados. Estes números são repetidos com frequência, quase sempre com legítimo orgulho. Mas o orgulho não patrulha o mar. Não protege cabos submarinos. Não fiscaliza recursos. Não recolhe informação. Não substitui fragatas, radares, sensores, aviões de patrulha marítima, drones, centros de comando, investigação científica ou diplomacia activa.
Um país não é grande no mar porque tem muito azul no mapa. É grande no mar quando tem capacidade para conhecer, vigiar, proteger e valorizar aquilo que está sob sua responsabilidade.
E é aqui que Portugal falha.
Durante anos, tratámos o mar sobretudo como promessa económica. A economia azul tornou-se uma expressão simpática, suficientemente vaga para agradar a quase todos e suficientemente elástica para caber em qualquer conferência. Fala-se de pesca, turismo, energias renováveis, biotecnologia, investigação, portos, recursos minerais, sustentabilidade. Tudo isso é importante. Mas há uma pergunta anterior, mais dura e menos confortável: quem garante soberania sobre esse espaço?
A economia azul sem soberania efectiva é uma ambição vulnerável. A plataforma continental sem meios é uma oportunidade incompleta. Uma ZEE imensa sem vigilância adequada é quase uma proclamação de boa vontade.
Os Açores talvez sejam o melhor exemplo desta contradição portuguesa. Vitorino Nemésio escreveu que “a geografia, para nós, vale outro tanto como a história”. Nos Açores, essa frase não é literatura: é política externa. As ilhas estão onde estão. E, por estarem onde estão, têm um valor que ultrapassa em muito a sua dimensão territorial ou populacional.
No coração do Atlântico Norte, os Açores são plataforma de controlo aéreo, ponto de apoio logístico, espaço de vigilância oceânica, zona de passagem de cabos submarinos, base meteorológica, activo científico e infraestrutura de defesa colectiva. A Base das Lajes é portuguesa e os Estados Unidos têm lá........