Do 28 de Maio e do 25 de Abril

A história portuguesa do século XX continua presa ao vício recorrente da simplificação moral. De um lado, a  tentação de pintar o Estado Novo como um longo parêntesis exclusivamente feito de atraso, repressão e  imobilismo. Do outro, a tentação inversa de olhar o 25 de Abril como origem absoluta de todo o progresso  nacional, como se antes dele nada houvesse senão trevas, e depois dele tudo fosse luz.

Nenhuma das versões resiste, porém, ao confronto com os factos. Entre o 28 de Maio de 1926 e o 25 de Abril de  1974 existe um período histórico demasiado complexo para caber numa narrativa de condenação total. Tal como  o Portugal democrático das últimas cinco décadas é demasiado contraditório para poder ser descrito como um  sucesso linear e inevitável.

Entre a implantação da República, em 5 de Outubro de 1910, e o 28 de Maio de 1926, Portugal viveu dezasseis  anos de extraordinária instabilidade política, marcados pela sucessão vertiginosa de governos, golpes militares,  pronunciamentos, atentados e convulsão social. Em pouco mais de década e meia, passaram pelo poder cerca de  quatro dezenas de governos, num regime formalmente parlamentar, mas dominado, durante largos períodos,  pelo Partido Democrático herdeiro da ala mais jacobina do republicanismo de Afonso Costa. Inspirada no  radicalismo laicista e anticlerical da III República francesa, esta corrente procurou refundar o país sobre uma ideia  de republicanismo militante e centralizador, frequentemente mais empenhado em combater os adversários do  que em consolidar instituições estáveis. A perseguição à Igreja, o conflito permanente entre facções republicanas,  a repressão simultânea da direita monárquica, a inflação, a crise financeira e o desgaste social acabaram por  corroer a legitimidade do regime. Quando chega 1926, a República........

© Observador