Por quer razão as sociedades modernas não gostam da beleza

Tudo o que a Beleza exige, a modernidade repudia

Da concepção platónica da Beleza como participação no Bem e como ascensão do sensível ao inteligível, passando por Aristóteles — que a identifica com ordem, simetria e forma — e por Santo Agostinho, para quem a Beleza é numerus, ordo et mensura apreendidos pela alma, a tradição clássica converge, em São Tomás de Aquino, numa síntese exemplar: a Beleza assenta na integridade (ou perfeição), na proporção (ou harmonia) e na claridade (ou esplendor), sendo entendida como aquilo que, ao ser apreendido, agrada — pulchrum est id quod visum placet. Em termos simples: o belo é o que é inteiro, ordenado e luminoso.

Na metafísica clássica, a Beleza (pulchrum) não surge isolada. Participa dos “transcendentes do ser” — Verdade (verum), Bem (bonum) e Unidade (unum) – daí decorrendo, numa acepção difícil de sustentar no nosso tempo, que o que é radicalmente falso dificilmente pode ser belo e que o que é intrinsecamente mau apenas pode ser “esteticizado”, mas nunca verdadeiramente belo.

Esta concepção encerra um traço hoje profundamente incómodo: a Beleza não é neutra. Distingue, hierarquiza, estratifica e tende a estabelecer níveis de excelência. De forma mais crua: nem tudo é belo, nem tudo pode sê-lo da mesma forma, e o juízo estético exigirá formação, cultura, atenção e sensibilidade.

Ora, a modernidade — sobretudo a partir do século XX — construiu-se sobre a suspeita de que qualquer hierarquia qualitativa é potencialmente opressiva. A Beleza clássica, ao implicar critérios tendencialmente objectivos, passa a ser percebida como elitista, normativa e, por isso, excludente. Em seu lugar, afirma-se que todas as manifestações artísticas são igualmente válidas por serem expressão de uma subjectividade. A Beleza deixa assim de remeter para cânones e passa a reduzir-se à esfera da opinião pessoal — com a vantagem evidente de, assim entendida, nada exigir a ninguém.

Assim, a concepção clássica da Beleza, encerrando critérios de qualificação tendenciamente objectivos, passa a revestir um inquietante desconforto para o Homem moderno, que dela desconfia pela sua natureza elitista, normativa, logo excludente.

Mas a Beleza, no seu sentido clássico, exige precisamente o que o nosso tempo evita: atenção, demora, silêncio, contemplação, interioridade. Além disso, convoca a transcendência — com a qual a modernidade se sente profundamente desconfortável — ao apontar para uma ordem que não controlamos. Em contrapartida, a sociedade moderna privilegia o imediato, o funcional, o manipulável e o produtivo.

Criar Beleza implica responsabilidade: mestria, disciplina, fidelidade a uma tradição. O feio, ou o deliberadamente disforme, é mais permissivo: dispensa técnica, refugia-se na intenção subjectiva e presta-se com maior facilidade à instrumentalização ideológica. Não é por acaso que regimes e movimentos ideológicos tendem a oscilar entre duas atitudes recorrentes face à Beleza, entendida no seu – mais exigente – sentido clássico: ou a esteticizam sob a forma de kitsch — bem patente, por exemplo, em confortáveis estéticas televisivas usadas em concursos e novelas — ou procuram neutralizá-la e destruí-la por via da iconoclastia, hoje contundentemente reeditada em actos de vandalismo perpetrados sobre monumentos por, alegadamente, representarem símbolos de uma ideologia a cancelar.

Talvez haja algo de revelador no facto de as sociedades contemporâneas produzirem tanta fealdade. Num aparente paradoxo, nunca se falou tanto de design, imagem e estética — e nunca se produziu tanta desordem visual, arquitectura inóspita e agressão ao espaço público. Talvez não por falta de sensibilidade, mas por indisponibilidade — no limite, por medo — daquilo que a Beleza verdadeiramente exige.

I. ESTÉTICA: a fealdade como norma

A cidade moderna é talvez o exemplo mais eloquente. A cidade clássica, ainda que assumidamente imperfeita, era legível. Tinha centro, ritmo,........

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