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“Isto não é a URSS” (e recordar Raymond Aron) /premium

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28.04.2019

1. “Isto não é a União Soviética.” O “isto” é Portugal. A afirmação foi feita por deputados socialistas e dirigida à ministra da Saúde do governo de António Costa. Repito, para que não fique qualquer dúvida: deputados do PS acusaram uma ministra do seu governo de querer tratar Portugal e os portugueses como se fossem habitantes da antiga União Soviética. Não foram os partidos de direita que o disseram. Nem sequer foi a “perigosa direita do Observador”. Aliás, pela parte que me toca, fico satisfeito que haja deputados socialistas a darem razão ao que muitos têm escrito várias vezes no Observador e noutros jornais portugueses. Mais vale tarde do que nunca.

A comparação com a União Soviética veio a propósito da tentativa, dirigida pelo Bloco de Esquerda e obedientemente seguida pela ministra de afastar os grupos privados da saúde. É igualmente simbólico, e muito preocupante, que esta frase tenha sido dita 45 anos depois do 25 de Abril e 28 anos depois do colapso da União Soviética. Mostra o estado da política portuguesa. Os deputados do partido do governo foram forçados a recorrer ao exemplo do império comunista, a mais longa experiência de servidão e miséria humana do século XX.

Este episódio também nos faz recordar que houve não uma, mas duas revoluções em Abril de 1974. A revolução democrática liberal, que esteve ameaçada durante o ano de 1975, e se consolidou durante a década de 1980 com as revisões constitucionais e a entrada de Portugal nas Comunidades Europeias. A segunda, a revolução comunista, prosseguida pelo PCP, os outros partidos da extrema esquerda (alguns deles deram origem ao BE), e alguns capitães do MFA, quase triunfou até ao 25 de Novembro de 1975. A revolução comunista foi derrotada, primeiro em Portugal e depois, em 1989 e em 1991, na Europa, mas não desapareceu.

Para justificar a sua entrada em São Bento, António Costa contou uma enorme mentira aos portugueses: disse que o PCP e o BE tinham derrubado os seus “muros de Berlim” e já não eram revolucionários. Costa sabia muito bem que não era verdade, mas precisava de justificar o apoio parlamentar necessário ao seu governo minoritário. Os dirigentes comunistas do PCP e........

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