O pantanal

O rescaldo da primeira volta das presidenciais deixou-nos exactamente onde a política portuguesa gosta de estar, num estado permanente de indefinição, naquele pântano delicioso onde ninguém se afoga completamente mas também ninguém consegue pisar terra firme. É o nosso habitat natural, convenhamos. Um pantanal político onde cada movimento levanta lama, onde cada passo afunda mais do que avança, e onde a única certeza é a incerteza cuidadosamente cultivada por todos os que dela vivem.

Agora, entre a espuma dos dias e a ressaca das urnas, resta-nos a grande questão existencial que verdadeiramente importa, qual será a taxa de abstenção na segunda volta? Porque, vejam bem, é aqui que o jogo se define, é aqui que os oráculos da política descobrirão a verdade revelada dos números. Se a abstenção se mantiver nos mesmos níveis da primeira volta e André Ventura subir na votação, teremos a confirmação do que muitos já suspeitavam, os votos de Cotrim de Figueiredo, de Marques Mendes e de parte do eleitorado do Almirante Gouveia e Melo migraram, qual bando de aves confusas, para os braços abertos do tribuno. Uma transmigração de almas conservadoras que, exaustas de procurar um líder palatável, se renderam ao inevitável.

Mas se, pelo contrário, a abstenção disparar para os níveis de 2021, aí sim teremos um espectáculo digno de análise, os votos da restante direita simplesmente evaporaram-se, ficaram suspensos na nuvem, numa espécie de limbo digital do desencanto. E isso, meus caros, representará uma taxa de rejeição a André Ventura que nem todo o spin mediático do mundo conseguirá........

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