Como derrotar Ventura: dar-lhe Belém |
Não é preciso ser especialmente atento para perceber que as eleições presidenciais de 8 de Fevereiro foram convertidas num referendo moral. De um lado, a democracia responsável. Do outro, André Ventura. Abordagem confortável, mas intelectualmente pobre. Pior: oculta o tabuleiro real.
O PSD colocou-se numa armadilha estratégica ao abdicar da direita: agora, qualquer movimento em relação a Ventura tem um preço eleitoral imediato e um efeito cumulativo na própria identidade do partido. Armadilha previsível, quase inevitável. As presidenciais não são um julgamento ético colectivo. São um jogo estratégico com actores racionais, incentivos claros e resultados previsíveis. Cada movimento prepara o seguinte. Cada eleição molda a próxima. Ignorar esta dimensão é abdicar de compreender não só o fenómeno Ventura, mas a acelerada erosão do PSD.
Se queremos perceber o que está a acontecer sem moralismo de café, precisamos de uma ferramenta. A teoria dos jogos serve, pois oferece um modelo simples e robusto para analisar decisões interdependentes. O dilema do prisioneiro mostra como decisões individualmente racionais podem produzir resultados colectivamente indesejáveis. Não é metáfora. É modelo. E é precisamente este modelo que ajuda a compreender a actual conversão das presidenciais num plebiscito permanente a Ventura.
O dilema do prisioneiro descreve um jogo entre dois agentes, cada um com duas estratégias possíveis. Cada agente escolhe a opção que maximiza o seu ganho esperado, assumindo racionalidade no outro. O resultado é um equilíbrio estável, mas subóptimo. Ambos ficam pior do que ficariam se cooperassem. É exactamente o que se passa em Portugal. De um lado está o sistema político dominante: o centrão partidário e institucional que estrutura o regime há décadas. Inclui PS, PSD, o aparelho do Estado e a sua projecção mediática, com especial relevo para os media........