A República que celebramos está a arder
Na semana passada ardeu um liceu em Nantes. No dia 1 de Outubro houve mil novecentas e quarenta e nove detenções em França, mais de trezentos polícias feridos e tiros de morteiro contra as forças da ordem. Nos dias seguintes, mais escolas incendiadas, sete jactos de ácido clorídrico e um fim-de-semana de confrontos, bloqueios e violência. Na mesma semana, a taxa de juro da dívida francesa a dez anos chegou perto dos cinco por cento, o valor mais alto em mais de uma década. A rua arde e a conta não para de subir.
Sendo hoje, 5 de Outubro, dia em que celebramos a República, vale a pena olhar para a França que importámos. Não a filha primogénita da Igreja, baptizada com Clóvis, mas a que produziu o tirano que fez Beethoven rasgar a folha de rosto da Terceira Sinfonia, ao perceber tarde de mais que o libertador queria era o trono. O país do vinho, do pseudo-intelectualismo barato e do croissant, que é vienense, mas vendido ao mundo como essência francesa. Em suma, uma França que, desde o pós-guerra, senão mesmo desde a revolução, é uma manta de retalhos. Importámos um regime que não sabe o que são contas equilibradas desde 1974. Cinquenta e dois anos de vida para além do défice e ainda não descobriram o que há do outro lado.
Bem sabemos que o que trouxemos de Paris não foi propriamente um modelo orçamental. Foi a progressiva captura do Estado por um projecto político, pensado em lojas e clubes fechados e apresentado ao país como a entrada na modernidade. Trocando o altar pelo compasso, fazendo do Estado a nova Igreja. O que começou em círculos restritos acabou por ganhar uma coisa que vale muito mais do que uma maioria: a máquina do Estado. E se em França chegou pela guilhotina, cá chegou pela mão de Magalhães Lima, grão-mestre do Grande Oriente Lusitano e co-fundador do Século, e de Machado Santos, à frente de uma Carbonária que valia umas centenas de homens armados em Lisboa, dois anos depois de o rei e o príncipe herdeiro terem sido abatidos a tiro no Terreiro do Paço. Ninguém perguntou aos portugueses se queriam mudar de regime, nem antes nem depois. O país acordou com um regime novo porque quem de facto mandava assim entendeu.
Tocqueville tinha percebido a batota um século antes de nós a repetirmos. No Antigo Regime e a Revolução, mostrou que os homens de 1789 derrubaram a monarquia e conservaram, intacta e muitas vezes reforçada, a máquina administrativa centralizada que a monarquia tinha passado dois séculos a montar. Nós, em 1910, importámos ambas: a retórica e a máquina, Afonso Costa dedicou os anos seguintes a refazer o país........
