14 de Setembro: o dia que nunca existiu e amarrou o fisco
Os súbditos de Jorge II deitaram-se na quarta-feira, 2 de Setembro de 1752, e acordaram na quinta-feira, 14. Onze dias desapareceram por lei do Parlamento. A Inglaterra protestante passara 170 anos a recusar o calendário que o Papa Gregório XIII decretara em 1582 e que Portugal adoptara nesse mesmo ano. Quando finalmente cedeu, cedeu sem nomear o Papa. A lei invocava o Concílio de Niceia, do ano 325, notava que quase toda a Europa já o seguia e acrescentava que a mudança seria conveniente para os mercadores. Foi talvez a primeira vez que uma regra do continente entrou em terras de Sua Majestade sem um exército que a promovesse. Entrou porque ajudava ao comércio.
Conta-se que o povo saiu à rua a gritar “Dêem-nos os nossos onze dias”. Os motins provavelmente nunca existiram e o grito sobrevive num quadro de Hogarth sobre as eleições de 1754. O ano fiscal começava a 25 de Março e o Tesouro, para não abdicar de um só dia de receita, empurrou-lhe o fim onze dias para diante: em 1753 passou a abrir a 5 de Abril. Em 1800 houve segunda dentada. Esse ano seria bissexto pelo calendário juliano e não o era pelo gregoriano, e o Tesouro, que não estava para perder vinte e quatro horas por conta da astronomia, tratou-o como bissexto e adiou a abertura mais um dia. Onze dias para o povo, doze para o Tesouro. É por isso que ainda hoje um britânico começa o ano fiscal a 6 de Abril: uma bula de 1582 e dois arredondamentos de cobrança.
Durante séculos, Londres viveu segundo uma regra que, como a sua constituição, nunca precisou de escrever: as ideias vão para onde são toleradas e o capital fica onde é bem tratado. Esquecer a regra não destrói o capital. Muda-lhe a morada.
A tolerância às ideias tem um nome improvável. Karl Marx chegou a Londres em 1849, expulso da Prússia, da França e da Bélgica, e ficou porque ali, por uma vez, ninguém o expulsou. Viveu no Soho, enterrou três filhos e escreveu O Capital na sala de leitura do British Museum, a estudar as estatísticas do sistema que queria derrubar. Popular não era. Em vida, era seguido por meia dúzia de círculos socialistas e ignorado por quase todos os outros. A fama mundial chegou depois. Quando morreu, em 1883, foram onze pessoas ao funeral em Highgate.
Hoje o túmulo recebe peregrinos, que se fotografam ao lado do busto e deixam flores. Na pedra, o Partido Comunista da Grã-Bretanha mandou gravar a décima primeira tese sobre Feuerbach: os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo, quando o que importa é transformá-lo. O cemitério, que extrai renda de um trabalho que........
