Eleições municipais francesas

A França continua a ser um dos grandes laboratórios políticos do Ocidente, como tem sido quase sempre ao longo dos últimos mil anos: desde o nascimento do Estado centralizado pela mão dos reis franceses na Idade Média — modelo depois seguido por outros reinos europeus —; passando pela criação de exércitos profissionais no final da Guerra dos Cem Anos; pelo absolutismo de Luís XIV, também imitado por outros monarcas; pela Revolução Francesa e pelas ideias liberais que dela emergiram e, infelizmente, pelas teorias que viriam a inspirar correntes de extrema-esquerda; até às ideias de Maio de 1968 — iniciadas em 1962 nos campus da Califórnia, mas com origem nos pensadores franceses (os famosos pensadores da French Theory). As modas e correntes político-filosóficas que surgem em França acabam quase sempre por influenciar o resto da Civilização Ocidental, para o bem ou para o mal. E a primeira volta das eleições municipais francesas de 2026 parece já prefigurar aquilo que poderá acontecer, dentro de poucos anos, no resto da Europa…

Quando abri os jornais portugueses durante a pausa no meu trabalho, notei que, na maioria dos casos, os títulos davam conta que “a extrema-direita e a esquerda radical” tinham alcançado bons resultados. Em todos os jornais, discutia-se se a esquerda iria ou não aliar-se à “esquerda radical” para barrar a “extrema-direita”… A primeira coisa a dizer é que os jornalistas estão enganados quando tratam o RN de extrema-direita (mais uma vez tenho de o dizer). É normal que se enganem; não são cientistas políticos, são jornalistas e, consequentemente, têm apenas o dever de informar, não o de compreender todas as vicissitudes das ideologias políticas e as pequenas diferenças entre elas. De facto, o RN (Rassemblement National) não é de extrema-direita, mas sim de direita radical. Foi, aliás, a razão do meu título: um pouco de provocação propositada.

O RN não rejeita a democracia como o fazem as extremas-direitas contra-revolucionárias (exemplo: Action Française, Partido Boulangista, Salazarismo, Franquismo), as extremas-direitas revolucionárias (exemplo: nacional-socialistas, fascistas) ou as extremas-direitas revolucionárias-conservadoras (exemplo: Konservative Revolution), ou mesmo as novas correntes tais como a NRX. Pelo contrário, apoia a democracia parlamentar e procura protegê-la contra os ataques que tem sofrido por parte da extrema-esquerda e de grupos ligados à Irmandade Muçulmana. Quer, inclusivamente, devolver poder ao povo através da introdução de mais transparência nas decisões políticas e da realização de referendos populares, como acontece na Suíça. Se isto é ser de extrema-direita, eu vou além e já venho. Aconselho os leitores interessados, ou os jornalistas que queiram escrever sobre o tema, a consultarem os excelentes livros do Professor Jean-Yves Camus, um dos maiores teóricos das direitas radicais e extremas a nível mundial (por exemplo Ultras, extrêmes: les radicalités de gauche à droite, ou então Les Droites Extrêmes en Europe). Quem quiser, pode ainda visionar a longa entrevista em que ele afirma que o RN é actualmente de direita radical, adepto da democracia e não de extrema-direita, sendo membro do chamado “arco republicano”. Por isso mesmo, podem utilizar, em relação ao RN, o termo direita radical e, se alguém contestar, basta citar Jean-Yves Camus, uma das maiores autoridades no assunto.

Pelo contrário, o partido LFI (La France Insoumise) é um partido de extrema-esquerda. Em que me baseio para afirmar tal coisa? Não sou apenas eu a dizê-lo — embora concorde que se trate de um partido de extrema-esquerda e anti-democrático —, mas sim o Conseil d’État (Conselho de Estado), o que levou o Ministério do Interior a classificar o partido LFI como de extrema-esquerda para as eleições municipais (fonte). Esta decisão foi tomada após a análise de vários discursos de membros do LFI, bem como de discussões entre os membros do Conselho de Estado e diversos cientistas políticos. Resumindo: o RN é de direita radical e a LFI de extrema-esquerda, e será esta a designação que irei utilizar quando escrever artigos sobre estes partidos, em respeito pelos meus colegas cientistas políticos franceses e pelas definições do governo francês.

Dito isto, o que é que as eleições municipais francesas nos dizem sobre o que se está a desenhar na Europa Ocidental ou, ousaria mesmo dizer, em todo o Ocidente? Estas eleições estão, tal como mencionava na introdução, a profetizar o que poderá acontecer nas restantes eleições do Ocidente: a “raça”, a “cultura” e a “religião” voltaram a emergir no debate político e, novidade das novidades, não foi a extrema-direita que popularizou estes temas, mas sim a extrema-esquerda. De facto, contrariamente ao que poderíamos esperar, não foi a extrema-direita que retomou o conceito de “raça”, mas sim a extrema-esquerda. Esta extrema-esquerda está representada pela LFI, mas também por pequenos partidos, como o Parti Anti-Capitaliste, ou por grupos antifas que “racializaram” o debate político. Foi a extrema-esquerda woke que, primeiro nos campus americanos e depois nos campus europeus — a propagação foi rápida — iniciou esta moda da “racialização da política”, introduzindo conceitos duvidosos e, ousaria dizer, conceitos “da treta”, tais como: “racismo epistémico”, “Whiteness”, “privilégio branco”, “diversidade ontologicamente oprimida”, “culpa ontológica branca”, “fadiga negra” ou o apoio a um “multiculturalismo extremista” que afirma que qualquer pessoa que tenha emigrado para o Ocidente pode viver segundo a sua cultura de origem, mesmo que esta se oponha completamente à cultura do país de acolhimento — caso contrário, seria racismo. Acuso, portanto, a extrema-esquerda — com a conivência da esquerda moderada, sempre pronta a fechar os olhos aos crimes e insultos da extrema-esquerda — de ter iniciado uma descida aos infernos muito perigosa através desta racialização da política.

Que é que isto tem a ver com as eleições municipais em França? Tem tudo a ver, pois, desde há alguns anos, uma parte da extrema-esquerda francesa decidiu incorporar estas teorias no debate político, procurando conquistar uma parte do eleitorado “não-branco”, sobretudo o eleitorado muçulmano, mas não só. Nos últimos meses, a LFI jogou a “carta comunitária” com toda a força. Deste modo, a LFI tem vindo a escolher candidatos com base na cor da pele ou na religião destes, e não nas suas possíveis qualidades intelectuais ou na experiência profissional, política ou académica. É polémico? Mas é o que vários cientistas políticos, intelectuais e jornalistas afirmam, como também os próprios candidatos da LFI admitem. Para o demonstrar, decidi apresentar alguns casos — apenas os mais conhecidos — de declarações racialistas e comunitárias polémicas proferidas por líderes e candidatos da LFI nos últimos meses. Estes continuaram a abordar temas como o suposto “racismo sistémico da sociedade francesa”, o “racismo estatal”, as discriminações raciais, a História colonial e as consequentes discriminações que permaneceriam na sociedade francesa, sem esquecer as “minorias” e as identidades sociais, sexuais, religiosas, culturais e… raciais. Os exemplos são tantos que tive de escolher apenas os mais recentes e os que mais repercussões tiveram.

Primeiro, vamos começar por Jean-Luc Mélenchon, o líder da LFI, que tanto gosta de recorrer a trocadilhos e afirmações enganosas para angariar votos junto das minorias, sobretudo do eleitorado muçulmano. O homem que, em 2010, rejeitava o véu islâmico, apelidando-o de um “pano na cabeça” (fonte), afirma agora que se enganou sobre este assunto, sustentando que as mulheres muçulmanas não se submetem aos maridos por usarem o véu e que têm o direito de o usar na rua, e noutros locais, desde que o Estado permaneça laico (fonte). Esta evolução explica-se pelo facto de que uma parte significativa do eleitorado da LFI é constituída por muçulmanos, que, segundo várias sondagens e estudos, têm vindo a experienciar uma ré-islamização nos últimos anos (fonte). E assim, o clientelismo eleitoral de Jean-Luc Mélenchon não tem cessado, ao ponto de proferir inexactidões sobre a História e a cultura francesa — e europeia. Para ilustrar a minha afirmação, ele afirmou que a Igreja de Santa Sofia, em Constantinopla, teria sido construída por muçulmanos — o que é falso: a construção começou em 532 e terminou em 537, muito antes do nascimento de Maomé — e, há poucos dias, sustentou que foram os muçulmanos que ensinaram física e matemática aos cruzados, permitindo a construção da Catedral de Notre-Dame de Paris, ou que educaram os europeus, que seriam todos “bárbaros” (fonte). Vários historiadores corrigiram-no, mas ele continua, impermeável às críticas.

Mas existem casos ainda mais chocantes… Por exemplo, a deputada da LFI Danièle Obono, gabonesa que imigrou para França aos 10 anos, afirmou, numa conferência da festa do jornal L’Humanité — a Fête de l’a, festa comunista equivalente ao Avante — que “um dos problemas da Fête de l’Huma, é a de que se trata de uma festa da esquerda branca” (fonte), e que, quando começou a interessar-se por política em França, via apenas políticos brancos, o que não lhe dizia nada, chocando até certos jornalistas de esquerda (fonte). É interessante notar que o seu interesse pela política não se teria baseado no bem comum, mas sim na necessidade de ver pessoas da sua própria cor de pele representadas. No mesmo registo, a eurodeputada da LFI Rima Hassan, nascida na Síria e imigrada para França ainda jovem, afirmou, durante um discurso político perante uma plateia maioritariamente não branca, que estas deveriam votar em pessoas da mesma cor e religião. Citando-a: “num Estado racista, que relativiza a sua história colonial, ou que a glorifica, o nome, a cor da nossa pele, é político… num Estado policial, manifestar-se e exprimir-se, é político… há apenas uma maneira de libertar-se destas correntes: eleger os que nos sejam parecidos…” (fonte). Ou seja, candidatos da mesma “raça” — são palavras dos próprios candidatos da LFI —, ou etnia, se preferirem, e da mesma religião que o eleitorado. Também Aly Diouara, candidato da LFI em La Courneuve e polémico deputado, afirmou, antes de ser eleito, num post no Facebook, que era preciso mais pessoas “de cor” na política e que deveriam existir candidatos que “na sua pele defendessem as convicções dos bairros” (fonte). Ou ainda Sébastien Delogu, deputado e candidato da LFI em Marselha, que afirmou que estas eleições representavam uma “oportunidade única para que os racisés (uma pessoa não branca, segundo a tipologia esquerdista) possa dirigir certas cidades, a fim de que o verdadeiro povo de França possa retomar o poder” (fonte).

Estes discursos perigosos lembram outro ainda mais preocupante: o discurso revanchista do deputado de origem angolana e congolesa Carlos Bilongo. Este, durante um programa numa Web TV africana sediada em França, a Librairie Africaine, disse em voz alta o que muitos membros da LFI pensam, ao ponto de ter apagado excertos do vídeo das suas redes sociais, face à polémica… mas tarde demais, pois muitos jornalistas já tinham feito cópias. Eis o que dizia Carlos Bilongo no famoso vídeo:

“A luta contra o racismo passa pela conquista do poder (…) Eu já sou deputado, já pusemos um pé lá dentro! Aqui, aquilo que os nossos pais e os nossos avós sofreram, não vamos simplesmente apagar. Eu não vou deixar esses racistas viverem a sua vidinha tranquilamente. Vamos mostrar-lhes que somos mais numerosos. Quiseram gozar connosco, quiseram insultar-nos? Nós somos mais inteligentes do que eles, somos mais resistentes, temos mais filhos do que eles, paciência para eles…” (fonte).

Um pequeno detalhe: atrás do deputado, no vídeo, um cartaz dizia “Iniciei a vingança da minha raça” (fonte), o que chocou muitos em França, mas que, pelo menos, tem o benefício de alertar os europeus nativos sobre o que esperar deste tipo de político. E se isto não abre os olhos a alguns, que dizer então do discurso de Bally Bagayoko, que acaba de conquistar a Câmara Municipal da cidade de Saint-Denis, a cidade onde repousam os reis de França. Todo o seu discurso foi marcado pelo comunitarismo, tendo Bagayoko afirmado que esta era a vitória da “nova França”, expressão igualmente utilizada por vários candidatos da LFI, que recorreram ao mesmo termo (fonte). A “nova França” é uma expressão cunhada por Jean-Luc Mélenchon para designar a “França dos imigrantes dos bairros”, dos “não brancos” (os tais racisés), que, segundo ele, viria substituir a “velha França” (os nativos), em trocadilhos muito duvidosos que fazem lembrar outra teoria que, supostamente, a esquerda combate (fonte).

A estratégia política que a LFI adoptou é perigosa. Fazer política com base apenas na etnia, na religião e nas minorias, propagando a ideia de que o Estado francês seria racista — e, quem diz França, diz Reino Unido ou Portugal, pois, para a extrema-esquerda racialista, todos os brancos são culpados de crimes que os nossos antepassados teriam supostamente cometido — terá, no futuro próximo, consequências irreversíveis. A França é, desde a Revolução — e, por acréscimo, todas as nações ocidentais desde pelo menos a Segunda Guerra Mundial — uma nação universalista. Ou seja, segundo a tradição republicana francesa, qualquer pessoa pode tornar-se cidadão francês, desde que respeite os valores da República, pouco importando a sua cor de pele, religião, sexo ou orientação sexual. Com estes discursos, os membros da LFI introduzem uma divisão “identitária” entre os grupos sociais, segundo a sua origem, religião ou sexualidade, com o objectivo de mobilizar eleitoralmente certos grupos, em detrimento do “povo francês”, que deveria ser uno, tal como a República Francesa é una e indivisível. Os representantes políticos deveriam, em teoria, representar o povo francês e as suas vontades. Hoje, segundo a LFI, representam apenas as vontades de uma multitude de comunidades. A França está a deixar de ser um Estado-nação para se transformar num “Estado-Nações”, em que mini-nações entram em choque entre si e, sobretudo, contra a “Nação histórica”.

Sabendo os problemas sociais, económicos, políticos, migratórios e de segurança que a França atravessa — situação que analisei num texto anterior de 2024, O que não dizem sobre a França — este tipo de política só pode terminar em confronto. Quando líderes políticos dizem a uma parte dos cidadãos franceses que devem pensar apenas nos seus interesses comunitários, e não nos interesses da Nação, estão a criar uma situação comunitária sensível, semelhante ao que o Líbano experienciou no início dos anos 70. No entanto, o que a França vive não é único no Ocidente. Nos EUA, a eleita à Câmara dos Representantes Ilhan Omar, nascida na Somália, venceu as eleições no seu Estado graças aos votos de uma parte do eleitorado esquerdista boémio, mas sobretudo devido aos votos quase unânimes do eleitorado muçulmano do Minnesota. No Reino Unido, durante as eleições municipais de 2024, muitos se recordarão das imagens em que candidatos muçulmanos de várias cidades inglesas executavam danças tradicionais de países islâmicos enquanto o seu eleitorado, maioritariamente muçulmano, gritava “Takfir, Allah Akbar”. Alguns destes candidatos eram antigos membros do Partido Trabalhista, mas afastaram-se do partido ao perceber que poderiam vencer apenas com os votos das populações muçulmanas. Um dos candidatos causou polémica ao gritar “Allah Akbar, esta é para a população em Gaza” após a vitória no conselho municipal em Leeds (fonte). Casos semelhantes podem ser encontrados na Suécia, na Bélgica — onde um deputado nem sequer falava francês, dirigindo-se aos eleitores em árabe — ou na Alemanha. O modelo universalista morreu… Não foi a extrema-direita que matou o universalismo e o igualitarismo, mas sim a extrema-esquerda, com alguma conivência da esquerda moderada. Estamos a assistir a uma mudança de paradigma no Ocidente. Tal como afirmou hoje o intelectual canadiano Mathieu Bock-Côté, a Europa está a experimentar uma política assente no etno-racialismo, na qual um país acaba por se dividir em grupos étnicos (fonte). Todos conhecemos o caso do Líbano e sabemos bem o que tende a acontecer nos países do terceiro mundo onde impera uma política baseada na etnia: as minorias étnicas não conseguem alcançar o poder e acabam, muitas vezes, por pegar em armas.

Tudo isto insere-se, em última análise, no Declínio do Ocidente. Se tivéssemos líderes dignos desse nome, há muito teriam cerrado as portas à imigração extra-europeia massiva — responsável não apenas por problemas de segurança e pela islamização de certos bairros, mas também pelo surgimento de políticas comunitárias manipuladas por políticos sem escrúpulos, ávidos de cargos e favores. Em vez disso, as fronteiras permanecem frágeis, os professores raramente ensinam aos jovens europeus e europeias a grandeza das suas identidades, e as políticas natalistas continuam largamente negligenciadas. O resultado é este: uma tensão latente que apenas aguarda a faísca capaz de a incendiar, arrastando, com ela, outros países europeus para uma tempestade social cujo desfecho ainda nos escapa. Neste contexto, vêm-me à memória as palavras do antigo Ministro do Interior francês Gérard Collomb, que, ao abordar a situação nos bairros que ele próprio considerava islamizados, advertia que a França — e, por extensão, a Europa — se encontrava confrontada com perigos imensos… Esperemos que ele esteja enganado, contudo, ao ver a situação a degradar-se rapidamente em França, bem como noutros países da Europa Ocidental, apenas posso concordar com as suas palavras…

“Aujourd’hui, on vit côte à côte et je le dis, moi, je crains que demain, on ne vive face à face. Nous sommes en face de problèmes immenses (Hoje vivemos lado a lado, e eu digo-o: receio que amanhã venhamos a viver frente a frente. Estamos perante problemas imensos.)”

Gerard Collomb, ex-ministro do interior francês, Outubro de 2018.

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