A Tirania do Bem

Houve um tempo em que a política popular cultivava uma certa sobriedade perante o poder. Desconfiava de grandes desígnios, de cruzadas morais além-fronteiras e da ilusão persistente de que sociedades complexas podem ser moldadas pela força. Havia a consciência — nem sempre teorizada, mas bem presente — de que a história tende a castigar quem confunde intenções com resultados. Essa tradição não desapareceu por completo, mas, em muitos casos, foi sendo abandonada.

No seu lugar instalou-se algo mais simples e mais perigoso: a redução do mundo a uma narrativa binária de bem contra mal. Vacinados, apresentados como os virtuosos que salvam o mundo, contra não vacinados retratados como ameaças à vida alheia; antirracistas autoproclamados contra supostos racistas absolutos; os que colocam bandeiras no perfil e defendem o envio contínuo de dinheiro sem escrutínio para países até ontem considerados profundamente corruptos, contra os “malvados” que, por levantarem dúvidas, ou por questionarem se esse é o melhor destino a dar aos impostos que lhes são coercivamente cobrados, são imediatamente associados ao inimigo. Mudam os protagonistas, ajusta-se a linguagem, mas a lógica permanece intacta.

Também as guerras deixam de ser discutidas em termos de interesse, equilíbrio ou prudência e passam a ser apresentadas como imperativos morais. Quem questiona é suspeito. Quem hesita é fraco. Quem recusa alinhar é tratado como cúmplice do lado errado.

Foi com esse espírito que se justificaram intervenções cujas consequências são hoje difíceis de esconder. No Afeganistão, prometeu-se estabilidade e acabou-se com a substituição dos talibã… pelos talibã. No Iraque, derrubou-se o regime de Saddam Hussein para abrir caminho a um país fragmentado, onde uma das mais antigas comunidades cristãs do mundo praticamente desapareceu. Na Líbia, a remoção de Muammar Gaddafi resultou num território entregue a milícias, rivalidades tribais, o regresso de mercados de escravos a céu aberto e uma anarquia prolongada. Na Síria, em nome da........

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