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Encenação e like: o medo de desaparecer

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Palcos de rostos voltados para o ecrã em qualquer lugar! Da paragem do autocarro à fila num qualquer serviço, divide-se atenção entre mundo real e escrutínio digital com a sensação de que é necessário publicar qualquer coisa pessoal e acompanhar publicações de outros. Poucos suportam o silêncio, a quietude das coisas, menos ainda os que conseguem deter-se no azul do céu ou no horizonte do mar. Absorvidos por historietas, comentários e lições, procuram pessoas, mas encontram ecos no vácuo — vozes que se repetem numa necessidade de pertença ao rebanho de Nietzsche onde é preciso aprender a comer, educar e a pensar! Em vez de presença e escuta, vigora a submissão à montra das excentricidades.

Há um misto de angústia e ânsia neste teatro de maus atores com plateia obrigada a aplaudir…, mas pouco importa a representação se não puder ser medida em likes. No passado, a aprovação era analógica, a satisfação ligava-se à autonomia e à capacidade de viver de acordo com as próprias convicções. Hoje, parece ter estacionado nas metas e propósitos sujeitos à voga. É inútil negar, estamos demasiado condicionados por protocolos, seguimos à risca a convenção, a terapia, a mentoria, o layout de uma vida boa … se não cumprimos estamos fora, não existimos.  Nada é mais assustador do que a inexistência.

A nossa imagem digital tem vida própria, age sem permissão e encobre a essência atrás deste boneco perfeito que apresentamos........

© Observador