Quando o cinema hesita perante o terrorismo |
A estreia de Projeto Global, de Ivo M. Ferreira, reacende em Portugal uma discussão que nunca foi verdadeiramente encerrada: como representar, em democracia, a violência política praticada em seu nome. O filme revisita o fenómeno das FP-25 de Abril recorrendo a uma linguagem cinematográfica sofisticada, contida e deliberadamente ambígua. Essa opção estética é legítima enquanto gesto artístico. O problema surge quando essa ambiguidade colide com um défice ainda não resolvido de memória histórica e de responsabilidade política.
A comparação com O Complexo Baader-Meinhof (2008), de Uli Edel, impõe-se quase automaticamente. Não por uma suposta superioridade alemã em matéria cinematográfica, mas porquanto ambos os filmes lidam com fenómenos estruturalmente semelhantes: organizações armadas de extrema-esquerda que atuaram em democracias recentes, em nome de uma leitura revolucionária da violência.
As diferenças, porém, são reveladoras — e ajudam a perceber os limites do cinema quando se aproxima de feridas que nunca cicatrizaram.
Na Alemanha, a Rote Armee Fraktion (RAF) foi rapidamente reconhecida como aquilo que efetivamente foi: terrorismo político. Produziu dezenas de mortos, traumatizou uma sociedade ainda marcada pelo passado nazi e obrigou o Estado a refletir profundamente sobre os seus próprios limites. O Complexo Baader-Meinhof opta por uma abordagem quase documental, extensa, cronológica e desconfortável. A violência é mostrada sem ornamento: é brutal, caótica, degradante. As personagens não são heróis trágicos nem vítimas do sistema. São agentes conscientes de uma escalada que destrói tudo à sua volta, incluindo qualquer pretensão moral.
Nada disso significa que o filme alemão seja moralista ou panfletário. Pelo contrário. A sua frieza narrativa funciona precisamente como uma forma de responsabilidade: não concede redenção estética à violência nem convida à empatia fácil com quem a pratica. O espectador é desafiado a compreender o contexto, mas nunca a suspender o juízo crítico.
Em Portugal, a história é mais desconfortável. As FP-25 atuaram num contexto de........