Inventar um Chega para 1976
No fim-de-semana passado, o Jornal de Notícias resolveu regressar ao homicídio do Padre Max com uma daquelas manchetes que, sozinhas, já fazem o serviço todo: “Mercenários ligados ao CDS contratados para matar padre Max há 50 anos”. O problema é que o texto do artigo não demonstra o que o título promete. Em vez disso, serve-se uma sopa requentada feita das mesmas confissões tardias, dos mesmos nomes conhecidos, das mesmas relações circunstanciais e de uma palavra mágica, dessas que dão imenso jeito ao jornalismo engajado: “ligados”.
“Ligar” é um verbo prodigioso. Serve para sugerir uma relação politicamente comprometedora sem o trabalho de ter de a demonstrar. E, sem demonstrar, alcança o que pretende, confundindo o passado e injectando no presente uma associação conveniente. Quem lê fica com a ideia de que o CDS traz nas suas fundações uma sombra terrorista equiparável ao boneco doutrinário que a imprensa de esquerda (isto é, todas as redacções, de todos os jornais) se entretém diariamente a propósito do Chega.
É este o ponto. Não é apenas mau jornalismo. Estamos perante uma necessidade de época. Já não basta implicar o Chega com tudo o que mexe, como se cada soco de rua, cada imbecilidade do Telegram e cada tatuagem mal feita de um energúmeno qualquer fossem a tradução natural de um partido inteiro. Agora torna-se necessário descobrir no CDS um antepassado retroactivo do monstro que se quer manter em circulação. Um partido fundador do regime, o primeiro inscrito no Supremo Tribunal de Justiça, com participação decisiva na construção da democracia portuguesa, aliás, o mais à direita em São Bento, sem que isso se confundisse com um ataque ao Estado de Direito, tem de ser interpretado à força como incubadora de bombistas, ainda que o texto não traga nada de novo para sustentar a acusação.
O homicídio do Padre Max foi um crime político hediondo. Mas uma coisa é reconhecer a vileza do crime, outra, muito diferente, é aproveitar o cinquentenário para fazer passar uma imputação que o artigo não prova.
Se isto tivesse surgido isoladamente, já seria mau. Mas surgiu precisamente no momento em que o RASI volta a fornecer matéria-prima para manchetes sobre a extrema-direita, os grupos neonazis online, os identitários e o crescimento do discurso de ódio associado a esse campo. O Público puxa para a capa “Aumentou a presença de portugueses em grupos neonazis online e satânicos”. O mais espectacular nesse título é que a oposição já nem se faz entre extrema-direita e extrema-esquerda; foi preciso invocar o Diabo, não fosse o leitor ficar com dúvidas sobre o enquadramento moral da coisa. No interior sublinha “a agenda da extrema-direita” e a sua capacidade de promover discriminação e radicalização violenta. Ao mesmo tempo, no Expresso, a extrema-esquerda e os grupos antifas surgem como pouco relevantes em matéria de criminalidade violenta organizada, apesar do seu “dinamismo significativo” (não parece linguagem para descrever grupos de arte performativa?).
Sejamos claros: não é o RASI que tem uma dimensão selectiva (descreve a violência e os riscos para a segurança interna em múltiplos quadrantes). Na verdade, nisto, Portugal segue a tendência internacional. “Dinamismo significativo”, por exemplo, é uma expressão que assentaria bem nos motins pós-George Floyd. É natural que já não se recordem. Apesar das pilhagens, dos incêndios, dos confrontos com a polícia, do recurso ao sempiterno cocktail molotov, dos estados de emergência e, em Seattle, de uma zona ocupada durante 23 dias, os meios de comunicação tradicional preferiram não lhes dar grande importância. E quando, por imperativo dos acontecimentos, lhes davam cobertura, oscilavam entre o protesto, o distúrbio e o levantamento, como se a palavra ‘violência’ tivesse de ser usada com parcimónia para não ofender a pureza da causa.
Tudo isto acontece logo a seguir ao ataque à Marcha pela Vida em Lisboa, assunto sobre o qual escrevi na semana passada e que volto a recordar: um homem lançou um cocktail molotov contra uma manifestação pacífica, composta em larga medida por famílias, crianças, bebés, velhos e mulheres grávidas. Aquilo que, noutras circunstâncias, teria sido imediatamente descrito como atentado terrorista ideologicamente motivado, passou quase como fenómeno atmosférico. Nem manchetes em catarata, nem sobressalto moral, nem grandes reflexões sobre radicalização.
O contraste é eloquente demais para ser irrelevante. De um lado, uma mobilização mediática total em torno da extrema-direita como ameaça difusa, permanente, proteiforme, histórica, contemporânea e até constitucional. Do outro, um atentado concreto, com autor detido, alvo identificável e motivação política plausível, que quase desaparece no ruído mediático. Pelo meio, ressuscita-se, muito oportunamente, um crime de 1976 para insinuar que o CDS traz consigo qualquer coisa de estruturalmente suspeita. A sincronia não é prova de encomenda. Mas também não convida exactamente à ingenuidade.
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