O país que adia |
Portugal não está bloqueado por falta de ideias. Está bloqueado por falta de decisão e coragem política. Há anos que se repetem os mesmos diagnósticos sobre a administração pública, a justiça, a saúde ou a educação. Diria que os problemas são conhecidos, estudados e até debatidos até à exaustão. O que falta não é consenso técnico, é vontade de decidir e, sobretudo, de assumir o custo das decisões.
A indecisão tornou‑se uma forma de governação. Em vez de reformar, adia‑se. Em vez de escolher, empurra‑se o problema para a frente. Invoca‑se a estabilidade, o diálogo social ou a complexidade dos processos, mas a verdade é simples: não decidir é politicamente mais confortável do que reformar. E esse conforto paga‑se caro, agora ou mais tarde.
Tal como acontece na vida pessoal, também no Estado o medo da mudança gera estagnação. Quem permanece num emprego que odeia por receio de arriscar não está a escolher segurança, está a escolher imobilismo. O mesmo faz o Estado quando mantém estruturas ineficientes apenas para evitar conflito político ou desgaste eleitoral. Mantém-se no imobilismo. Não decidir é, sempre, uma decisão: a de deixar tudo como está, mesmo quando já não funciona, mesmo quando é incompetente ou ineficiente. Mesmo quando leva os cidadãos à desesperança.
As consequências são visíveis e recaem sobre os cidadãos. Licenças que demoram meses, tribunais que decidem tarde demais, registos simples que demoram meses, serviços públicos sobrecarregados, investimento afastado pela burocracia.
Esta paralisia não é um acidente, é o resultado direto da ausência de reformas. Um Estado que não decide é um Estado que falha. É um Estado que apenas parece ser bom quando não decide.
Reformar implica risco, resistência e perda de popularidade. Mas governar não é gerir o calendário eleitoral, é assumir responsabilidades. Um poder político que se limita a administrar o existente, sem coragem para o transformar, abdica da sua função essencial. Não basta manter o sistema em funcionamento. É preciso torná‑lo eficaz, justo e sustentável.
As grandes mudanças não exigem, necessariamente, ruturas dramáticas ou radicais. Exigem ao invés decisões consistentes, numa lógica de pequenos passos para grandes transformações. Simplificar processos, eliminar redundâncias, combater burocracias, avaliar políticas públicas e corrigir erros.
O problema é que, num país habituado ao adiamento, até as decisões mínimas são tratadas como ameaças.
O tempo, porém, não espera. Quando o Estado não decide, decide o desgaste, decide a frustração, decide o descrédito. E quando a confiança nas instituições se esgota, o espaço é ocupado pelo radicalismo e pela rejeição da política democrática. A ausência de decisão não é neutra, é perigosa, dá margem de atuação a quem não quer a Democracia ou a quem quer explorar as falhas da Democracia.
Decidir é governar. Fugir à decisão é abdicar do poder e da responsabilidade.
Um Estado que tem medo de reformar não protege os cidadãos: abandona‑os lentamente à sua sorte. E essa é, talvez, a decisão mais grave de todas.
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