Portugal Medieval: simbologia da mesa – Pão, Vinho e Azeite

Evocar os 900 anos de Portugal é revisitar um tempo em que as paisagens, a imaterialidade espiritual e a própria economia se entrelaçavam na trama urdida da vida medieval. O pão já era um alimento crucial, constituindo o eixo central da alimentação quotidiana e espelho da organização, social, económica e territorial do Reino. Sinónimo de vida e subsistência, com forte valor nutricional e simbólico. Os grãos eram moídos em moinhos de água ou moinhos de vento, em especial no litoral e mais a sul, onde o trigo tinha melhores condições edafoclimáticas para vingar, originando pães mais claros e valorizados, reservado a elites e simbolizando poder e distinção social, ao passo que o pão de misturas de centeio e aveia era sustento para mitigar a fome da generalidade da população. A qualidade do pão (tal como hoje) depende da granularidade da farinha e do tempo de fermentação das massas-mãe, na maioria das vezes cozido em fornos comunitários pertencentes a senhores feudais, igreja ou municípios, implicando também o pagamento do respectivo foro (taxa).

Por entre muralhas, conventos e mosteiros, avista-se a vinha como representação perene de promessa, assim como o olival, que igualmente frutificando colheita após colheita, origina azeite dando luz e alimento – seja em lares ou altares – do herético ao divino. Vinho e azeite, como pilares multidimensionais que encerram ao longo das suas fileiras sectoriais cultura, ritos e identidade.

Trilogia pão-vinho-azeite

A trilogia pão-vinho-azeite, como pilares civilizacionais, está, assim, na génese de uma identidade milenar que consagra ab initio a importância da alimentação simbólica na construção da nossa cultura, como pedra angular na mesa medieval portuguesa. Alimento do corpo e do espírito, num tempo em que refeiçoar era também momento de oração e trabalhar a terra gesto de transcendência, cuja carga simbólica e religiosa associada à liturgia Corpus Christi estrutura-se como elemento de subsistência, ligando ainda o quotidiano telúrico e a magnificência dos banquetes.


A trilogia, ainda hoje.

A távola medieval portuguesa não é mero suporte, revelando-se como cenário, código civilizacional e comunhão. Nela se inscrevem hierarquias, idiossincrasias e rituais. A documentação existente e respectiva iconografia confirmam uma cultura gastronómica regulada e performativa, desde o abastecimento de víveres até à execução protocolar do serviço à mesa.

A própria forma como e o que se come é ela própria uma forma de representação e afirmação. Seremos aquilo que comemos? Ou talvez não.

A mesa é também palco de exercícios de legitimação, de........

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