A universidade que se ajoelha perante o mercado
“Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiveres medidos vos hão de medir a vós.” O versículo é duro porque não fala apenas de moral privada, fala de critério. Fala do modo como escolhemos pesar o mundo. E, hoje, poucas áreas tornam essa advertência tão visível como a inteligência artificial, a universidade e o mercado de trabalho. A questão não é apenas o que a IA consegue fazer, é a medida com que estamos a avaliar o tipo de educação que estamos a sacrificar por causa dela e o modelo de trabalho que estamos a deixar que ela reordene. A medida, no fundo, já está a regressar até nós.
O texto da Netflix sobre “data as a product” ajuda a perceber o problema na sua forma mais concreta. A ideia parece técnica, mas é, antes de mais, uma lição de responsabilidade, porque os dados só servem realmente quando têm propósito claro, utilizadores definidos, qualidade controlada, dono explícito e fim previsto. Quando ninguém responde por eles, quando existem “porque sim” e quando nunca são revistos nem retirados, deixam de apoiar decisões e passam a corroer a confiança. A Netflix insiste justamente nisto, sem finalidade, sem ownership e sem gestão do ciclo de vida, os dados degradam-se e, quando isso acontece, a organização começa a decidir com instrumentos em que já não acredita. É difícil imaginar melhor ilustração da ideia bíblica da medida, a qualidade do juízo futuro depende da seriedade do critério presente.
Essa mesma lógica aplica-se à IA. Um modelo pode ser brilhante numa demonstração e, ainda assim, frágil na vida real. Pode escrever com fluidez, resumir depressa, sugerir soluções plausíveis e, ao mesmo tempo, induzir erro, omitir contexto, amplificar ruído ou aumentar trabalho invisível. O equívoco mais comum dos últimos anos foi confundir promessa com maturidade e protótipo com sistema. Em muitas organizações, o discurso foi mais rápido do que a prova. A ferramenta tornou-se símbolo de modernidade antes de se tornar infraestrutura fiável. Medimos a IA pelo deslumbramento da primeira resposta, quando devíamos medi-la pela consistência, pela rastreabilidade, pelo custo de supervisão e pelo efeito líquido na qualidade da decisão.
A IA está a ser julgada por um critério complacente. Admitem-se fragilidades atuais como se fossem apenas atrasos passageiros, trata-se cada limitação como promessa adiada, nunca como problema substantivo. Daí nasce uma forma de cegueira muito moderna, a crença de que o futuro absolverá automaticamente o presente. Mas, a história da tecnologia não é uma linha reta e o progresso incremental não garante, por si só, um salto estrutural. Entre a utilidade localizada e a transformação sistémica há um intervalo enorme, preenchido por governação, integração, literacia, custos, confiança e tempo.
No mundo do trabalho, esse intervalo já é mensurável. Um estudo recente do International Labour Organizations estimou que um em cada quatro empregos no mundo está potencialmente exposto à IA generativa, mas sublinhou que o efeito mais provável é a transformação das tarefas, não a eliminação integral dos postos de trabalho. Ou seja, o cenário mais plausível não é o desaparecimento súbito do humano, mas a reorganização do trabalho humano sob novas condições. Ao........
