As Forças Armadas continuam à espera da política |
Durante décadas, a Europa habituou-se à confortável ideia de que a guerra era um problema distante, resolvido pela NATO, pela dissuasão americana e por uma espécie de “paz automática” garantida pela globalização.
O resultado dessa ilusão estratégica está hoje à vista: exércitos tecnologicamente sofisticados, mas com crescentes dificuldades em recrutar, reter e regenerar efectivos. A guerra na Ucrânia destruiu definitivamente essa fantasia do “fim da História” e obriga os países europeus a confrontarem-se com uma pergunta incómoda: se necessário, quem combate, quem mobiliza e quem sustenta uma guerra prolongada?
É verdade que os carros de combate se compram, as munições se fabricam, mas o capital humano militar demora anos a construir.
A guerra na Ucrânia já dura há quatro anos, mas só agora parte dos nossos deputados parece ter despertado para o estado real das nossas Forças Armadas (FFAA). E despertaram não por iniciativa própria ou visão estratégica, mas porque a tutela da Defesa expôs publicamente os efeitos das medidas tomadas pelo Governo AD que, não curando a doença estrutural, pelo menos conseguiram estancar a hemorragia.
Perante isso, assistimos a mais um episódio de ejaculação legislativa destinada sobretudo ao aplauso das respetivas bancadas parlamentares.
Muito ruido, pouca substância.
O problema é que conhecem mal a realidade que agora fingem descobrir e, pior ainda, não se deram ao trabalho de estudar o problema na profundidade necessária para perceber que não existe uma solução única para os três Ramos. A Marinha enfrenta desafios de recrutamento e retenção muito diferentes dos da Força Aérea. A Força Aérea compete com mercados altamente qualificados e tecnicamente agressivos. O Exército, pela sua dimensão e natureza operacional, sofre necessidades humanas incomparavelmente maiores. Misturar tudo no mesmo pacote de propostas é demonstrar desconhecimento absoluto da especificidade de cada Ramo. E, que tipo de FFAA vamos precisar em 2030? Já pensaram nisso?
Mais grave ainda: produziram essa legislação sem ouvir devidamente quem conhece a realidade operacional, os Chefes dos Ramos.
Numa instituição assente em cadeia de comando, experiência e conhecimento técnico, ignorar quem lidera diariamente as Forças Armadas é não apenas arrogante, mas profundamente irresponsável.
Tinham prestado melhor serviço ao país se tivessem optado pelo silêncio e pelo estudo sério do problema. Porque aquilo a que assistimos foi, em linguagem militar simples e direta, uma monumental bostada.
E convém recordar algo essencial: o drama dos efectivos não é exclusivo de Portugal.
Estende-se por toda a Europa. Espanha, Alemanha, Itália, Grécia ou França enfrentam dificuldades crescentes de recrutamento, retenção e ligação entre sociedade e defesa.
A diferença é que alguns países já perceberam que isto não se resolve com anúncios, slogans ou voluntarismo legislativo. Resolve-se com estratégia, cultura de defesa, valorização da condição militar e políticas diferenciadas para cada realidade operacional.
Vejamos alguns exemplos:
Na vizinha Espanha, as Forças Armadas espanholas mantêm cerca de 120 mil militares activos, mas enfrentam problemas crescentes de envelhecimento, dificuldade de retenção, salários pouco competitivos e forte dependência de contratos temporários. Madrid aboliu o serviço militar obrigatório em 2001, apostando totalmente num modelo profissional. O problema é estrutural: o sistema produz forças relativamente qualificadas, mas sem grande profundidade mobilizável. Ou seja: há capacidade para operações expedicionárias limitadas, mas não necessariamente para sustentação prolongada de conflito de alta intensidade.
A França continua a ser provavelmente o único país da Europa Ocidental com verdadeira cultura estratégica autónoma. Com cerca de 200 mil militares activos, força........