A espinha de vidro da Defesa |
Há uma ilusão confortável no pensamento militar ocidental que atravessa décadas: a ideia de que destruir um sistema de armas equivale a destruir uma capacidade. A Ucrânia tem vindo a desfazer essa ilusão de forma sistemática, metódica e até irreversível, para quem ainda não tinha compreendido a lição aprendida.
A guerra moderna não começa, nem termina, no sistema de armas. Começa muito antes, nos paióis de munições, nos depósitos de combustível, nos armazéns de peças de substituição, nas vias ferroviárias que transportam os sobressalentes, nas instalações de manutenção que mantêm os sistemas operacionais, nas redes de comunicações que ligam o comando ao terreno. Um carro de combate sem combustível é sucata com lagartas. Um F-16 sem peças sobresselentes é uma exposição estática de milhões de euros. Uma fragata sem munições é um alvo com bandeira.
O conceito de “espinha de vidro”, introduzido pelo Modern War Institute de West Point para descrever a fragilidade logística dos exércitos modernos, é mais do que uma metáfora. É um diagnóstico. As forças armadas ocidentais, e Portugal não fugiu à regra, construíram ao longo de décadas sistemas logísticos eficientes, mas optimizados para a paz, pensados para minimizar redundâncias e maximizar rendimento. O problema é que eficiência e resiliência raramente são a mesma coisa. E em tempo de guerra, é a resiliência que decide.
A Ucrânia demonstrou, com uma clareza que os analistas dificilmente conseguirão ignorar, que a rectaguarda deixou de existir como conceito operacional seguro. Distâncias que outrora garantiam protecção já não a garantem. Depósitos de combustível, nós ferroviários, portos, instalações de manutenção, postos de comando e plataformas logísticas tornaram-se alvos prioritários, não porque sejam espectaculares, mas porque são decisivos. Quem destrói a logística não destrói apenas o apoio. Destrói a capacidade de combater.
“Um exército marcha sobre o seu estômago”, já dizia Bonaparte, a que Napoleão nas suas campanhas traduzia dizendo aos seu estado-maior que “o amador fala de estratégia. O profissional fala de logística.” Nas Academias Militares qualquer catedrático da Táctica das Armas aceitava a velha máxima de que “a táctica ganha batalhas, mas é a logística que ganha guerras”. Um exército sem logística é apenas uma multidão fardada, dizia o Oficial para quem a logística é para a guerra o que o sangue é para o corpo humano: quando deixa de circular, tudo o resto deixa de funcionar.
Centralizar, reduzir redundâncias, externalizar serviços, diminuir stocks e eliminar capacidades consideradas excedentárias é racional em tempos de paz. O problema é que a guerra não recompensa a eficiência; recompensa a eficácia. Uma cadeia logística militar não pode deixar de reparar equipamentos porque a oficina própria é mais cara do que um contrato externo. Na Defesa, a eficiência é importante, mas vem depois da eficácia. A função de uma logística militar não é ser barata; é garantir que a força continua a combater quando tudo o resto começa a falhar.
Ou seja, esta lição não é nova na teoria. É nova na prática contemporânea, à escala, com a combinação de drones e misseis de longo alcance, ataques de precisão, guerra electrónica e operações cibernéticas que a Ucrânia tornou rotina. As forças ucranianas não se focam em apenas destruir o sistema de armas. Já aprenderam que apenas precisa de o isolar da sua cadeia logística, e o isolamento, numa arquitectura optimizada para a eficiência, pode ser mais fácil do que parece.
A questão que se coloca às forças armadas europeias, e à NATO no seu conjunto, é, portanto,........