A mãe de todas as fake news
Creio não estar enganada ao dizer que o assunto que mais nos preocupa nestes tempos é o da guerra. Refiro-me à mais recente, a do Irão, mas tenho também presente todas as outras. Não satisfeita com este estado de coisas, indago acerca do que torna possível uma guerra, na esperança de que identificado o mal se possa mudar o rumo das coisas. Em meu auxílio veio o Papa lembrar há dias a raiz do problema, ao convidar todos os homens a uma postura de verdade muitas vezes ofuscada pelas ‘fake news´, como se diz hoje, ou seja, por mentiras, insinuações e acusações infundadas. Como bom agostiniano, Leão XIV sabe o que é a paz e sabe o que está na base de todas as fake news, a mãe de todas as fake news, a saber, a “notícia” de que não existe uma coisa chamada Verdade.
É conhecida a frase de Santo Agostinho: encontrei muitos homens que dizem não haver Verdade. Mas é preciso conhecer a frase toda: encontrei muitos homens que dizem não existir a Verdade mas não encontrei um único homem que quisesse ser enganado.
Entre nós há muito disto, muitas fake news como a que o jornal Público publicou há dias : “Uma petição assinada por 17 mil pessoas defende o regresso da legalização das terapias de conversão, que têm o objectivo de converter um homossexual em heterossexual”. A verdade é que a petição tinha um único pedido: a revogação da Lei 15/2024.
Numa penada um “prestigiado” jornal nacional é responsável por uma mentira, caluniando milhares de pessoas; numa penada um coro de notícias e comentários, one after another, como o de Francisco Goiana da Silva na Sic Notícias no seu comentário semanal Raio X. O mediático médico não teve melhor argumento do que perguntar à pivot se ela achava que ele não tinha ar de pessoa saudável, e antes que ela respondesse declara: Sou homossexual e não acho que seja menos saudável que um heterossexual. Amigo, digo eu, não és menos nem mais saudável , e nem precisavas de tão desabridamente confessares a tua homossexualidade, que já há muito percebi que o eras , e não foi com um raio x. Sabes, já cá cantam 65, pouca saúde e muita heterossexualidade. Uma pessoa tem que se enxergar, não confundir leis e documentos, apresentar as evidências científicas todas e não se limitar a um quadrozinho com meia dúzia de linhas com números e nomes internacionais, ridículo de tão mal amanhado.
Este exemplo da notícia do Público é apenas a ponta do iceberg. Muitas são as notícias que não se baseiam nos factos, mas apenas em preconceitos ideológicos e à medida das audiências e dos likes.
Mas antes de tudo o mais, as notícias dão-nos conta de que há muito os homens vivem da certeza de que a Verdade morreu, e que o que conta agora são as narrativas e as interpretações, que acabam por tapar a realidade, impedindo de ver as coisas na sua nudez. Só as crianças são capazes de dizer sim, sim e não, não. Como diz Ralph Fiennes, o camarlengo do não ingénuo filme O Conclave, ao propor a dúvida como caminho: A certeza é a grande inimiga da unidade.
Os nossos intelectuais enveredaram pela demissão da Verdade e apostaram no psicológico e no sociológico. As certezas de Agostinho são encaradas como violência. Ignora-se que a certeza da fé é vivida num processo que tudo inclui – dúvidas, negações, avanços e retrocessos – como se pode ver em Pedro, o apóstolo escolhido para Rocha da Igreja, tendo contudo negado Jesus três vezes. E não poderia ser de outra forma, já que a fé não torna o homem num super homem, mas torna o homem mais homem.
Nesse sentido, entre nós o recente livro de Patrícia Reis, O lugar da incerteza, não é inovador ao reforçar a ideia que fé é um lugar onde por vezes também há espaço para a incerteza. Há muito que o sabemos, basta ler o que escreveram doutores e santos, que têm a experiência da dúvida alicercada na fé. Em tratados, diários e confisssões, esse intelectuais mostram a razoabilidade da dúvida, paredes meias com a fé, já que sem esta aquela é impossível, logo violenta.
Nestas matérias não chegam as boas intenções. Francisco pode estar cheio delas, e estar até certo daquilo que diz, mas eu não me deixo enganar. Quero que me levem ao que as coisas são. Por muitas voltas que se dê, mais cedo ou mais tarde somos confrontados com essa exigência de verdade.
Votando a Santo Agostinho, ninguém quer ser enganado. E pergunta: porquê e em nome de quê? Em nome de uma seriedade da vida e pela vida. Mesmo o mais céptico de todos os homens ao defender que não existe uma coisa chamada Verdade, tem pelo menos a certeza dessa Verdade que defende a pés juntos. Mas afunda-a num mar de dúvidas não a reconhecendo na sua real potencialidade – a de nos acompanhar até ao nosso respiro final, como acompanhou o crucificado ao dizer Pai porque me abandonaste?.
Sem a presença fé a dúvida torna-se violenta e não construtiva. Por isso Caim matou Abel, por isso nos continuamos a matar uns aos outros. Por isso as primeiras palavras de Prevost na Praça de S.Pedro foram as palavras de Cristo : Que a Paz esteja convosco! Mas, pergunto eu, Cristo terá mesmo ressuscitado?
No rescaldo do domingo de Páscoa, é de novo Leão XIV que nos ajuda ao pedir-nos ajuda: a partir de um único dado, o túmulo vazio, surgem duas interpretações: uma é fonte de vida nova e eterna, a outra de morte segura e definitiva. Este contraste leva-nos a refletir sobre o valor do testemunho cristão e sobre a honestidade da comunicação humana.
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