Morreu um pai alienado. Há 10 anos que não via a filha |
Dia 9 de fevereiro de 2026 morreu o José. Morreu um pai alienado. Morreu um homem que viveu dez anos a tentar aproximar-se da filha. Pediu ajuda a profissionais, pediu ajuda ao tribunal, procurou mediações, aceitou supervisões, esperou decisões. Acreditou que o tempo e a justiça lhe devolveriam aquilo por que nunca deixou de lutar, a presença da filha Maria (nome fictício) na sua vida.
Morreu alguém que, durante uma década, carregou a ausência como uma dor diária, a dor de não ver, não tocar, não acompanhar, não estar. Há dores que não fazem barulho, mas consomem por dentro, lentamente. A dor de um pai afastado à força de uma filha é uma delas.
O José morreu sem ter o reencontro que esperava. Morreu sem recuperar o tempo que a vida lhe foi tirando, dia após dia, mês após mês, ano após ano, aniversário após aniversário, Natal após Natal. Morreu com perguntas que nunca tiveram resposta. Morreu com a saudade a ocupar o lugar dos abraços. E quando um pai morre assim, não morre apenas uma pessoa. Morre também uma parte da história que ficou por viver, um futuro que não chegou a acontecer, conversas que ficaram por ter, gestos simples que nunca mais serão possíveis.
E o que fica quando um pai alienado morre? Fica o silêncio, aquele silêncio que já existia, mas que agora se torna definitivo. Fica a sensação de que já não há tempo, de que já não há oportunidade para reparar o dano. Fica a frase que tantas vezes chega tarde demais: “Se ao menos…”. Fica uma ausência que deixa de ser provisória e passa a ser eterna. Mas a ferida não é apenas do pai. É também da filha.
Porque a alienação parental não apaga apenas um pai ou uma mãe da vida de uma criança ou adolescente. Ela atinge a sua identidade. Afeta a forma como se vê a si própria, influencia a maneira como aprende a confiar e condiciona a forma como constrói a ideia de amor, de segurança e de família. Quando uma relação é interrompida durante anos, a criança ou adolescente cresce com uma parte da sua história fragmentada. Cresce com um vazio difícil de descrever, com um silêncio dentro de si, mesmo que tente convencer-se de que está tudo bem e aprenda a viver sem fazer perguntas.
Maria poderá viver esta perda como vivem muitos filhos que perdem alguém de quem foram afastados, com uma mistura de dor, dúvida e inquietação, marcada por sentimentos contraditórios e por emoções intensas, difíceis de compreender e integrar. Pode sentir tristeza e não saber explicar de onde ela vem. Pode sentir raiva e não perceber exatamente contra quem. Pode sentir alívio e depois culpa por sentir alívio. Pode sentir indiferença, e essa indiferença também pode doer, porque muitas vezes é apenas uma defesa construída ao longo de anos para sobreviver a um conflito que não escolheu.
Há filhos que só começam a fazer perguntas quando já não existe ninguém do outro lado para responder. E essa é uma das dimensões mais duras do luto: não se chora apenas a pessoa que morreu, chora-se também a relação que nunca chegou a existir plenamente, o “nós” que ficou suspenso. Um dia, a Maria pode olhar para trás e perguntar-se: o que é que eu perdi?, o que é que me disseram?, o que é que foi verdade?, porque é que não pude ter os dois, pai e mãe? Pode acontecer que queira conhecer o pai quando já só o poderá fazer através de fotografias, relatos, documentos, memórias fragmentadas e versões incompletas.
O luto pode não vir agora. Pode ser tardio. Pode surgir quando for adulta, quando tiver os seus próprios filhos, quando viver uma relação amorosa, quando ouvir alguém chamar “pai” com naturalidade. Pode surgir numa data, numa música, num lugar, ou numa frase. E pode trazer uma pergunta difícil: “Se ele me amava, porque é que não esteve?” Mesmo que a resposta seja simples e dolorosa: ele tentou!
A morte não finaliza a história, muda apenas a forma como ela permanece, como ela dói, como ela é sentida dentro de nós. A morte de José não apaga o que aconteceu, não resolve o que ficou por resolver, não reconstrói o que foi quebrado. Mas obriga-nos a olhar com honestidade para uma realidade incómoda, há separações que se tornam irreversíveis, e quando finalmente se percebe isso, já não há tempo para voltar atrás. Há processos, acusações, medidas cautelares, relatórios, decisões e conflitos. Mas, no centro de tudo, está sempre a filha. E quando os pais prolongam o conflito, são os filhos que crescem dentro dele que ficam marcados por consequências que podem atravessar toda a sua vida e acompanhá-los para sempre.
Falar de José é falar de muitos outros pais e mães alienados que vivem afastamentos prolongados. É falar de filhos e filhas que crescem privados de uma relação essencial. É falar de como o tempo, quando transformado em arma, destrói laços em silêncio.
Que a história de José não seja apenas mais um nome, mais um caso arquivado, mais uma tragédia privada. Que seja um alerta para que os conflitos não sejam alimentados até ao ponto de não haver retorno. Que as instituições não se limitem a gerir processos, mas se empenhem verdadeiramente em proteger vínculos. Que se ouça a criança sem lhe pedir que rejeite metade de si. Que se proteja a relação parental saudável antes que ela morra em vida.
O José morreu. E com ele morreu a possibilidade de um reencontro que talvez pudesse ter reparado perdas e suavizado feridas profundas.
Que a filha alienada, Maria, um dia, consiga encontrar um caminho para fazer as pazes com a sua própria história. Que possa chorar o que for preciso, não apenas o pai que perdeu agora, mas também o pai que foi perdendo ao longo dos anos. E que, no meio da dor e da confusão, consiga compreender uma verdade simples e essencial, que nunca deveria ter sido colocada no lugar de escolher entre os dois pais. Que haja memória. Que haja consciência. Que haja mudança.
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