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Conflitos, medo, mentiras e lealdades divididas (III)

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Este é o terceiro episódio do testemunho de Inês, madrasta de uma criança em situação de alienação parental, cujo percurso iniciámos nos artigos anteriores: “Dar voz ao silêncio: viver a alienação parental como madrasta (I)” (08 de maio de 2026) e “O início da relação: quando a madrasta entra numa história já marcada pela alienação (II)”.

Hoje refletimos sobre aquilo que acontece quando os adultos, absorvidos pelos seus egos e conflitos, se esquecem das necessidades emocionais dos filhos, colocando-os no centro de lealdades divididas e de disputas em que nunca deveriam ser envolvidos.

Um dos pontos mais marcantes do testemunho de Inês é a capacidade de recentrar a sua reflexão na criança e nas suas necessidades emocionais. Em contextos de conflito parental, é frequente que os adultos (pais, mães, avós, avôs…), consumidos pelas próprias mágoas, inseguranças ou disputas, acabem por perder de vista aquilo que verdadeiramente deveria orientar todas as decisões – o bem-estar da criança. Como referiu a Inês: “E eu acho que é muito, também, termos sempre este foco e isso, lá está, eu acho que isto é para qualquer família, independentemente da estrutura, é para o bem daquela criança e perde-se isso. E é fácil perder esse foco, é fácil de repente pensar: ‘mas a mim não me dá jeito uma determinada situação’, ou sentir até que me estão a pôr a mim em causa e achar que é tudo contra mim. Não, não tem nada a ver comigo, há coisas que não têm nada a ver com os adultos”. O testemunho de Inês mostra como é importante que os adultos consigam separar os seus conflitos e emoções das necessidades da criança, protegendo-a de tensões e disputas que não lhe dizem respeito e permitindo que mantenha relações afetivas saudáveis e seguras.

Como madrasta, Inês reconhece que muitas decisões deveriam ser tomadas a partir das necessidades da criança alienada e não das conveniências, ressentimentos ou disputas dos adultos. Como referiu: “(…) parece que os adultos esquecem-se que no meio daquela confusão toda há uma criança que precisa de outro tipo de cuidados e que se esqueçam destes egos. Eu acho que é um bocadinho isso, que as pessoas se esqueçam um bocadinho dos seus próprios egos e consigam agir em prol do bem-estar da criança. E, portanto, sim, se a mãe está com ele no Algarve e está bem, não sou eu que vou dizer agora, ‘não, não, mas é o meu fim de semana’. Quer dizer, ele está bem, não está? Está a correr bem. Então acho que às vezes também temos que pôr de parte estas guerras”. Inês evidenciou assim uma perspetiva particularmente relevante em contextos de alienação parental, a capacidade de colocar o bem-estar emocional da criança acima das reivindicações individuais dos adultos. Sublinhou que, muitas vezes, os conflitos se prolongam porque........

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