Conflito de lealdade |
O conflito de lealdade é uma das experiências mais dolorosas que uma criança pode viver. Acontece quando um filho ou uma filha sente que precisa de escolher entre o pai e a mãe. Não porque deixou de amar um deles, nem porque esteja zangado, mas porque sente a pressão, direta ou indireta, para ficar do lado de um deles.
Em situações de separação ou divórcio muito conflituosos, sobretudo quando existe alienação parental, isto é, quando um dos pais influencia a criança contra o outro, o conflito de lealdade torna-se ainda mais violento. A criança passa a sentir que demonstrar carinho por um dos pais pode significar magoar, desiludir ou até trair o outro.
Assim, aquilo que deveria ser simples e natural, amar as duas pessoas mais importantes da sua vida, o pai e a mãe, transforma-se numa experiência vivida com medo, culpa e insegurança.
Presenciando o conflito parental, a criança apercebe-se de olhares, comentários, silêncios e mudanças de humor dos pais. Ouve críticas de um pai ou mãe alienador sobre o outro, alienado. E pode sentir que demonstrar carinho pelo pai ou mãe alienado provoca tristeza ou zanga no alienador. Aos poucos, começa a acreditar que amar os dois ao mesmo tempo pode trazer problemas.
Perante essa pressão, a criança tenta ajustar-se. Pode aproximar-se do pai ou da mãe que exerce mais influência e afastar-se do outro. Pode guardar para si o que sente e repetir ideias que ouviu, mesmo que não correspondam ao que vive. No fundo, não quer escolher. Quer continuar a amar o pai e a mãe. Mas quando percebe que esse amor não é aceite pelo alienador e lhe traz consequências, entra num conflito interior profundo e doloroso.
Muitas vezes, este processo começa de forma subtil, outras vezes, nem tanto. Um dos pais fala mal do outro à frente da criança, faz perguntas insistentes depois dos convívios, demonstra tristeza, zanga ou desilusão quando o filho mostra carinho pelo outro. A criança começa a sentir culpa por gostar do pai ou da mãe que está a ser criticado. Não fala sobre, ou mesmo esconde, os momentos felizes que viveu. Pode repetir frases ao pai ou mãe alienado duras que ouviu ao alienador, mesmo que não correspondam ao que realmente sente. E assim, afasta-se de um dos pais para evitar conflitos. Mas, a criança não está a escolher livremente. Está a tentar manter uma falsa paz que a faça sentir segura.
Este conflito é uma forma de violência emocional. Não deixa marcas no corpo, mas afeta o desenvolvimento, a autoestima e a forma como a criança aprende a relacionar-se com os outros. Pode surgir a ansiedade, a tristeza, o medo de abandono ou a dificuldade em confiar nos outros.
No decurso da minha atividade profissional, acompanhei situações que mostram como isto acontece no dia a dia. Um menino passou um fim de semana muito feliz com a mãe. Fizeram várias atividades, riram, divertiram-se. No entanto, quando regressou a casa do pai, disse apenas que “foi normal” e, por vezes, chegou mesmo a afirmar que “foi uma chatice, não fizemos nada”. Mais tarde explicou-me que dizia isso porque não podia mostrar entusiasmo com o tempo passado com a mãe, pois o pai ficaria triste. Isto acontece porque a criança está muito atenta às emoções dos adultos. Mesmo que ninguém lhe diga nada diretamente, percebe mudanças no olhar, no tom de voz, no ambiente. Se sente que o pai fica magoado, irritado ou distante quando ele fala bem da mãe, tenta protegê-lo. E a forma que encontra é esconder a própria alegria. A criança depende emocionalmente do adulto com quem vive. Precisa de sentir que esse adulto está bem, disponível e que não a vai rejeitar. Se acredita que demonstrar felicidade pela mãe pode criar tensão ou afastamento, escolhe o silêncio. Não é falta de amor pela mãe. É medo de perder a segurança junto do pai.
Muitas crianças desenvolvem uma grande sensibilidade ao estado emocional dos pais após a separação. Tornam-se vigilantes. Observam expressões faciais, tom de voz, pequenos gestos. E ajustam o que dizem para evitar conflitos. Ao dizer “foi normal”, o menino está a tentar manter a paz. Está a proteger o pai da tristeza e, ao mesmo tempo, a proteger-se a si próprio de possíveis reações negativas. Por dentro, ele pode ter sido muito feliz. Mas aprendeu que nem todas as alegrias podem ser partilhadas. Quando a criança sente que precisa de esconder sentimentos verdadeiros para não magoar um dos pais, está-se perante um sinal claro de conflito de lealdade.
Outro caso é de uma adolescente que deixou de ir a casa do pai porque via a mãe chorar cada vez que isso estava para acontecer. Quando um filho percebe que a sua saída provoca sofrimento visível num dos pais, ativa-se um mecanismo emocional muito forte, o medo de causar dor. A adolescente começa a associar a sua ida para casa do pai ao sofrimento da mãe. Mesmo que ninguém lhe peça diretamente para ficar, ela sente essa responsabilidade. Instala-se então a culpa. A jovem pode pensar: “Se eu for, a mãe vai ficar sozinha.”, ou “Se eu for, ela vai sofrer por minha causa.” E assim começa a assumir um papel que não é seu, o de apoio emocional do adulto. Existe aqui uma inversão de papéis, a filha passa a sentir que precisa de proteger a mãe, quase como se fosse ela a adulta da relação. O problema é que, ao fazer isso, abdica das próprias necessidades. Surge então um conflito intenso, ama o pai e quer estar com ele, ama a mãe e não quer vê-la sofrer, e sente que qualquer decisão que tome vai magoar alguém. Para reduzir esta tensão, a solução mais imediata parece ser ficar com a mãe. Assim, diminui a culpa e sente que está a cumprir um dever. No entanto, essa decisão não surge da liberdade, mas do medo e da responsabilidade excessiva. A recusa em ir a casa do pai, neste contexto, não é sinal de desamor. É um mecanismo de proteção. A adolescente está a tentar manter equilíbrio num sistema familiar fragilizado. Quando isso acontece, não estamos perante uma simples recusa de convívios. Estamos perante um conflito de lealdade profundo, onde o amor existe, mas é vivido com medo. E nenhuma criança deveria amar com medo.
Um terceiro caso foi o de rapaz que dizia coisas muito negativas sobre a mãe, mas quando falava de momentos vividos com ela, mostrava carinho e boas memórias. Havia uma diferença entre o que repetia e o que realmente sentia. Isso acontece porque a criança pode estar a viver dois sentimentos ao mesmo tempo. Por um lado, existe a experiência real que teve com a mãe, caraterizada por momentos bons, de carinho e memórias felizes. Esses sentimentos são verdadeiros e fazem parte da sua história. Por outro lado, existe a pressão que sente no presente. Pode ouvir críticas repetidas, sentir que um dos pais espera que ela tome partido, ou perceber que demonstrar amor pelo outro causa tensão. Para se adaptar, começa a repetir o discurso que escuta com mais frequência. Assim, cria-se uma divisão interna. O que a criança sente pode ser diferente do que ela diz. Ela pode falar de forma negativa porque, quer agradar ao pai ou à mãe com quem vive, tem medo de perder amor ou aprovação, quer evitar conflitos e acredita que precisa de escolher um lado para se sentir segura. Mas quando fala de memórias concretas, como férias, aniversários, momentos simples do dia a dia, expressa o seu verdadeiro sentimento, no seu sorriso, brilho nos olhos. Aí confirma-se que o seu afeto pelo pai ou mãe alienado ainda existe.
A diferença entre o discurso e a emoção é um sinal de conflito interno. Não significa que a criança esteja a mentir de forma consciente. Significa que está a tentar ajustar-se a uma situação emocionalmente difícil, em que o amor não desapareceu, mas ficou escondido atrás do medo e da necessidade de se proteger.
Noutro caso, um jovem cortou contacto com a mãe e passou a usar palavras muito duras para falar dela. Antes da separação, tinham uma relação próxima e afetiva. O afastamento não aconteceu de repente. Foi acontecendo aos poucos, com comentários negativos repetidos e a influência constante do pai. Este tipo de rutura raramente surge de um dia para o outro. Na maioria das vezes, é um processo lento, feito de pequenas mudanças, críticas sucessivas e tensão, neste caso, sempre que o jovem demonstrava carinho pela mãe. Aos poucos, a distância vai-se instalando até parecer uma decisão definitiva, quando na verdade foi construída passo a passo. Onde antes existia uma relação próxima, depois da separação, começou a haver uma nova narrativa, críticas constantes, dúvidas lançadas sobre o carácter da mãe ou histórias repetidas de forma negativa, a que o jovem foi sendo exposto. Aos poucos, essa narrativa começou a substituir as memórias afetivas positivas que tinha. Sentindo que demonstrar carinho pela mãe criava uma tensão em casa, começou a reprimir esse afeto e adaptou o discurso. Com o tempo, essa adaptação tornou-se numa posição rígida.
Também pode acontecer que a repetição constante de ideias negativas crie confusão. O jovem começa a duvidar das próprias memórias. Pergunta-se: “Se sempre ouvi que ela é assim, será que eu estava enganado?” .
O corte de contacto pode ser uma forma de reduzir o conflito interior, aliviar o mal-estar emocional e diminuir a pressão que sente por dentro. Ao escolher um lado, o jovem sente, por algum tempo, que tudo fica mais simples. Mas isso não significa que a história vivida, o afeto e os sentimentos misturados tenham desaparecido. Muitas vezes continuam lá, só que escondidos. É por isso que o afastamento gradual, com influência constante, pode transformar uma relação antes próxima numa rejeição que parece total. A criança age por medo de perder amor ou aprovação e pode vir a acreditar que está a fazer o que é certo ou a proteger quem parece mais fragilizado.
Os pais alienados precisam de compreender que o amor do filho não desaparece. Mesmo quando há rejeição, silêncio ou distância, esse amor continua a existir. Muitas vezes, está apenas escondido atrás do medo, da culpa e da pressão que a criança sente.
É importante lembrar que, nestas situações, as maiores vítimas são as crianças, filhos e filhas que ficam no meio do conflito dos adultos. Muitas vezes, tornam-se reféns de pressões e influências e tentam adaptar-se para sobreviver emocionalmente, para não perder o amor, a proteção ou a estabilidade. Por isso, quando um filho rejeita ou fala de forma dura, a primeira reação não deve ser negativa. Esse comportamento é, muitas vezes, um sinal de sofrimento e de um conflito interior que ele ainda não sabe como resolver.
Os pais precisam de compreender que, por trás da rejeição, existe um pedido de ajuda silencioso. É fundamental que o pai ou a mãe que está a ser afastado não desista e mantenha uma presença firme, tranquila e disponível, mesmo quando a distância dói.
Quando uma criança é colocada no meio de uma guerra emocional, ela não ganha. Aprende apenas a sobreviver.
A longo prazo, esta dinâmica pode deixar marcas profundas como desenvolver a dificuldade em estabelecer limites nas relações futuras, uma tendência para assumir responsabilidades emocionais que não são suas, sentimentos persistentes de culpa e a dificuldade em colocar as suas próprias necessidades em primeiro lugar.
Proteger as crianças não é envolvê-las no conflito, mas libertá-las dele. É permitir que cresçam com a segurança de que podem amar os dois pais sem medo. Porque nenhuma criança deveria ter de escolher entre aqueles que mais ama.
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