Carta de um pai alienado ao filho: "Ausente..." (II)

Este pai escreve ao filho por ainda não ser possível ser entendido. O filho ainda é demasiado novo para compreender tudo o que está a acontecer. Escreve-lhe para que, um dia, o filho possa ler e talvez compreender porque é que o pai esteve ausente, mesmo estando presente. Escreve-lhe também porque ninguém o escuta quando tenta falar.

A carta tornou-se, assim, o único espaço onde este pai alienado ainda consegue existir como pai. É no papel que pode dizer-lhe o que sente, explicar o que vive e deixar registado o amor que não lhe consegue demonstrar no quotidiano. Cada palavra escrita é uma tentativa de não desaparecer da história do seu filho, de lhe explicar a sua aparente ausência, para que o filho saiba que nunca foi esquecido, nunca foi abandonado e nunca deixou de ser amado. Escreve-lhe para que, no futuro, o filho possa perceber que a sua distância não foi uma escolha, mas uma imposição. E escreve também para proteger a memória da ligação, para que o silêncio não apague aquilo que existiu.

Esta carta não é apenas uma mensagem dirigida ao filho alienado. É também um gesto de resistência, uma forma de dizer: “eu estive aqui, eu tentei, eu amei, mesmo quando não me deixaram amar como pai”. Ao longo da carta, o pai alienado descreveu uma forma particularmente cruel de controlo sobre a vida do filho, exercida pelos avós maternos alienadores. O filho foi impedido de ir à escola como estratégia para limitar o contacto com o pai alienado. O seu afastamento deixou de ser apenas emocional e passou a interferir diretamente nas suas rotinas, nomeadamente na sua influência na educação e no direito ao filho a ter uma vida normal. O pai alienado registou esse momento com poucas palavras, mas com um enorme peso: “Acabei de te ver em casa dos teus avós. Hoje voltaste a não ir à escola”.

Estas palavras escritas revelam um pai alienado que........

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