A quebra do contrato geracional |
Durante séculos, a sociedade assentou num contrato coletivo: a mulher cuidava, o homem trabalhava. Era um acordo desigual, mas claro. As mães educavam as filhas para serem cuidadoras, pilares silenciosos da família, enquanto os filhos eram preparados para o mundo exterior. Hoje, esse contrato desapareceu e o vazio que deixou ainda não foi preenchido.
No século XXI, educamos crianças para serem cuidadas, mas não para cuidarem. Crescem rodeadas de conforto, protegidas de frustrações, habituadas a que alguém resolva por elas o que é difícil, incómodo ou simplesmente aborrecido. A intenção é boa; o resultado, nem sempre.
A geração que se tornou adulta nos anos 2000 quis oferecer aos filhos tudo aquilo que não teve: brinquedos, tecnologia, experiências, liberdade. Mas esqueceu-se de lhes transmitir aquilo que realmente recebeu: tempo, presença, responsabilidade, resiliência. A dificuldade, que outrora moldava o carácter, passou a ser vista como um obstáculo a eliminar.
Quando uma criança não consegue andar de bicicleta, colocam-se rodinhas. Quando um jovem não consegue ler, criam-se adaptações para evitar o desconforto de repetir. Quando um adolescente não sabe lidar com frustração, culpa-se a escola, o professor, o sistema. Estamos a formar uma geração que não sabe falhar e, por isso mesmo, não sabe crescer.
Quando observo adultos de 40 anos que ainda acham que a mãe ou o pai têm de suprir as suas necessidades, acho que está tudo dito. As crianças que nunca cresceram.
E aqui surge a pergunta inevitável: quem cuidará dos pais desta geração?
A resposta mais dura é também a mais honesta: ninguém, se nada mudar.
Mas culpar “a mulher”, como se ela fosse a guardiã eterna do cuidado, é injusto e ultrapassado. O erro não é feminino; é coletivo. É de uma sociedade que desvalorizou o cuidado, que o tratou como um instinto natural das mulheres, em vez de uma competência humana que se aprende, se pratica e se transmite.
O erro da mulher foi achar que seria cuidada quando precisasse, mas isso não aconteceu. O marido não cuidou porque não sabe cuidar; os filhos não cuidam porque ou não sabem ou estão a cuidar dos próprios filhos.
A mulher esqueceu de cuidar de si própria, a mulher esqueceu o autocuidado.
O cuidado não é biológico, é cultural.
E, se deixarmos de o ensinar, ele desaparece.
O desafio do nosso tempo não é regressar ao contrato antigo, mas construir um novo: um pacto em que cuidar não é um fardo feminino, mas uma responsabilidade partilhada. Em que educar não é proteger de tudo, mas preparar para quase tudo. Em que crescer implica esforço, e amar implica presença.
Se quisermos uma geração capaz de cuidar, temos de começar por lhes mostrar como se faz. Não com discursos, mas com exemplo. Não com culpa, mas com coragem.
Porque o futuro não se constrói com rodinhas na bicicleta; constrói-se com equilíbrio, queda, persistência e, acima de tudo, com a capacidade de cuidar uns dos outros.
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