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Pequeno ensaio sobre a maldade

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22.03.2026

O mal é a lavandaria das dores. Da culpa e da vergonha. Dos traumatismos e das humilhações. Dos ódios e dos rancores. Das mágoas, dos abandonos e dos remorsos. O mal que trazemos aos outros serve para expiar os males que nos perseguem por dentro. Sermos, às vezes, um bocadinho maus não faz de nós más pessoas. Já fazermos questão de ser maus e magoar, sim. E isso ajuda a perceber que quanto maiores são os males que nos atormentam piores nos tornamos. Às vezes, tão maus, que somos levados a considerar a bondade não como um assomo de inteligência mas como um rebate de vulnerabilidade. A ponto de querermos banir a felicidade, a beleza, a ingenuidade ou a sabedoria porque tudo o que os outros tenham de bom que nos desperte inveja se transforma no tudo-nada que leva a um desmoronar sem retorno, que mata ou enlouquece.

O que é a maldade? A promoção continuada da dor e do sofrimento. Sem crítica, sem culpabilidade e sem reparação.

Mas ninguém nasce mau! A maldade resulta dos apelos ao apego continuadamente insatisfeitos. É por isso que, por vezes, o amor e ódio parecem viver juntos. O ódio é o grito de triunfo sobre o amor que se não tem. O ódio é a deriva com que o mal “vence” o desespero.

Será o mal uma doença? Sempre que usamos a vida para que ela mais depressa nos mortifique e nos traga à morte estamos doentes. E, sendo assim, o mal é uma doença. Porque compromete tudo o que liga, tudo o que regenera, toda a redenção. Quem vive dominado........

© Observador