Arrumar a cabeça
E, depois, há o trabalho, com tudo o que ele exige. Mais a família, uma relação e as crianças. E a correria de todos os dias, desde que uma pessoa se levanta até que se deita. Mais os sobressaltos e os pequenos conflitos, ou os mal-estares maiores, que magoam muitas vezes. E a ideia de que, finamente, depois das crianças deitadas, não há quem se não sente no sofá e partilhe uma série qualquer ou fale, namore ou se aconchegue. Mas, a seguir, adormece-se num minuto e os dias, quando não se fala dos sobressaltos das crianças, não dão espaço para pôr a conversa em dia e para pôr likes nas nossas relações, semelhantes àqueles que deixamos nas redes sociais. Depois, há as redes, claro, que nos agarram e nos empanturram de quase nada, o tempo todo. E uma relação assim-assim com um irmão, por exemplo, por causa duma namorada cheia de tolices que, entretanto, parece que o estragou. E a nossa família, que tão depressa é a reserva natural da bondade como aviva as páginas em branco ou as arestas e as omissões ou as tensões e as feridas por resolver que, todavia, também nos unem. Mais os sonhos que adiámos. E as viagens que não fizemos ou os brinquedos mais caros que talvez nunca tenhamos. E as chatices com um professor qualquer de uma das crianças que interferem e incomodam. E a conta do seguro e mais um risco no automóvel. E “as trombas” dos vizinhos que não teriam de ser um sol radioso mas que nos levam a comentar o quanto nos incomoda que não digam nem “Bom dia” nem sorriam. E o faz de conta das avaliações de desempenho que, por mais que sejamos óptimos, a curva normal nunca deixa que tenhamos “excelente”. E a conta-ordenado que nos dá a ideia que vivemos sempre no mês a seguir. Mais um número no tamanho dos jeans que nos abala. E o comboio de coisas que a nossa cabeça regista e liga e, incansável, tenta perceber.
Como se pode ser atarefado sem........
