Baixar impostos não exige cortar apoios sociais

Em Portugal repete-se há décadas a ideia de que, para baixar impostos, seria inevitável cortar nos apoios sociais. Esta narrativa, politicamente conveniente, tem servido para manter uma das cargas fiscais mais elevadas da Europa, desviando a atenção do verdadeiro problema: a incapacidade estrutural do Estado de gerir recursos públicos com rigor, transparência e profissionalismo. O que falta não é receita. O que sobra é desperdício. A verdade incómoda é que o Estado não gere recursos — gere dívida. Vive-se com a lógica de gastar hoje e empurrar a fatura para amanhã, como se existisse um cartão de crédito ilimitado. Mas a dívida pública traduz-se em impostos futuros, serviços degradados e oportunidades perdidas.

Mais grave do que a má gestão é a ausência de consequências para quem a pratica. Num país onde pequenos atrasos fiscais de cidadãos são punidos sem hesitação, como explicar que decisões ruinosas envolvendo milhões de euros passem impunes? Este vazio de responsabilidade alimenta um ciclo permanente de derrapagens, contratos mal negociados, duplicação de estruturas e processos ineficientes. O Estado desperdiça dinheiro todos os dias: equipamentos ligados sem necessidade, plataformas digitais que não funcionam, obras mal planeadas que custam o dobro, frotas sem controlo e serviços que existem apenas no papel.

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