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A “EmergênTITE” pode matar

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Quando tudo é uma “emergência”, a verdadeira emergência deixa de o ser. Ambulâncias enviadas para situações sem gravidade, urgências hospitalares transformadas em centros de saúde e recursos cada vez mais escassos criam um problema que raramente é discutido com frontalidade: o abuso do sistema de emergência pode custar vidas.

A doença que não existe… mas está a contaminar o País

Existe uma nova doença a espalhar-se pelo país. Não consta dos manuais de Medicina, não tem código internacional de diagnóstico e dificilmente será objeto de investigação científica. Ainda assim, afeta milhares de pessoas todos os dias e produz consequências reais no funcionamento do sistema de saúde. Chamo-lhe “EmergênTITE”.

A “EmergênTITE” manifesta-se através da convicção de que qualquer problema de saúde deve ser tratado como uma emergência. Uma febre ligeira, uma dor lombar com vários dias de evolução, uma indisposição gastrointestinal, uma receita médica terminada ou uma simples preocupação transformam-se rapidamente em motivos para recorrer a um serviço de urgência ou até para acionar meios de emergência pré-hospitalar.

O fenómeno não surgiu do nada. Foi crescendo ao longo de anos, alimentado pela dificuldade de acesso aos cuidados de saúde primários, pela crescente iliteracia em saúde e também por um sistema que, demasiadas vezes, optou pela solução mais fácil: encaminhar para a urgência aquilo que deveria ter sido resolvido noutro nível de cuidados.

Quando a ambulância deixa de estar disponível

A maioria dos cidadãos olha para uma ambulância e vê um veículo. Quem trabalha em socorro pré-hospitalar vê algo diferente: vê um recurso escasso, composto por profissionais altamente qualificados, equipamento especializado e tempo limitado.

Ao contrário da perceção de muitos, as ambulâncias não existem em número ilimitado. Cada vez que uma equipa é mobilizada para uma situação sem gravidade, deixa de poder responder a outra ocorrência. Esta realidade, tão simples quanto desconfortável, raramente entra no debate público.

Quando uma ambulância é enviada para transportar um doente sem qualquer critério de urgência ou emergência, ninguém vê aquilo que deixou de acontecer. Ninguém vê o “enfarte” que aguarda mais alguns minutos por assistência, o “AVC” que perde uma janela terapêutica preciosa ou a vítima de trauma grave que espera por recursos que se encontram ocupados noutro local.

A tragédia da má utilização dos meios de emergência reside precisamente nisso: os seus efeitos são invisíveis. Não surgem na ocorrência inadequada........

© Observador