O ataque à Marcha pela Vida é preciso e inevitável

Não parece, mas é. Não parece porque um ajuntamento de carrinhos de bebé e jovens borbulhentos a quem só falta a auréola para compor o ar sacerdotal não seria propriamente a equipa olímpica – de um banda política conhecida por albergar os mais rematados facínoras – escolhida para a luta nas ruas. Nem o nome – marcha – lhe dá um ar militar, nem o conjunto forma grande pelotão. Umas aspirantes a Madres Teresas levantam, com os braços atrofiados, uns cartazes levezinhos e bem-dispostos, encontram-se famílias mais preocupadas com biberons do que com inimigos, e até o vídeo que circulou, de uma manifestante a ajudar um “terrorista” a levantar-se, mostra uma inépcia bélica que faria qualquer general levar as mãos à cabeça.

Acontece, no entanto, que a esquerda precisa de fazer destes manifestantes demónios. A reacção natural seria pedir um bocadinho de dignidade na vitória. Já ganharam, já puseram até os conservadores embalados a lamentar a reversão do Roe vs Wade, porque é que não deixam estas pobres almas em paz? Não deixam, porque a esquerda precisa de os atacar. Precisa que a gasolina lhes incendeie de facto os ânimos, para poder dizer (sem que interesse sequer que as reacções sejam pacatíssimas) que são vítimas do ambiente que eles próprios criaram: se o discurso “fascista” não causa uma calamidade à esquerda, que cause à direita, que pode ser culpada na mesma; precisa que estas manifestações sejam vistas como ameaças, que as “conquistas” e os “direitos” por que, a tanto custo, lutou, estejam permanentemente em ameaça, sob pena de ter de se confrontar com a sua própria inutilidade. Que propósito pode ter uma vida política dedicada a liberalizar causas, quando elas já foram liberalizadas? O activista que já teve êxito fecha a porta e acende um charuto, como um comerciante........

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