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A última comunista no Aljube

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18.03.2026

Na semana passada, a esquerda queixou-se pela primeira vez de ver alguém sair, e não de entrar, no Aljube: parece-nos um progresso social relativamente unânime, que só o pessimismo dos tempos impede de celebrar; quase ao mesmo tempo, o mais magrittiano dos teatros lisboetas – que se chama do Bairro Alto, mas é no Rato – também mudou de director e as pateadas ecoaram pela internet fora.

Tudo isto é triste, sobretudo para quem perde o emprego ou vê interrompida uma ambição legítima para um espaço, mas é sobretudo deprimente. A depressão não vem de assistir a adultos, de joelhos a bater no queixo, sentados no cavalinho, a brigarem pela vez no carrossel das nomeações; vem, sobretudo, porque é só isto – já acabou.

O grande plano da direita para a cultura, aberto o livro, é uma lista telefónica: um rol de nomes, para substituir uns por outros mais próximos de nós, e espetar com o problema nas mãos deles. Eles que resolvam o problema de saber o que é uma política de direita na cultura, que a dos partidos de direita, quando pensam nela, é só esta: nomear pessoas de direita, na esperança de que elas tenham políticas de direita.

Note-se que o panorama é tão pobre, que até uma coisa que devia ser natural – parte-se do pressuposto de que o Garcia Pereira não vai ser ministro da Economia da IL, porque se conta com uma certa divergência de opiniões – é contestada e exige coragem. É contestada porque o mundo está habituado a que não haja política cultural da direita e, não havendo, que fique o que lá está; exige coragem porque, mesmo nos casos mais musculados, em que um espírito mais toureiro entra por um gabinete adentro e pergunta “mas porque é que não havíamos de mudar?”, essa mudança é feita com má consciência.

Durante anos, a direita habituou-se a usar, como estrela de xerife, a ideia de liberdade. Isto tinha um contexto histórico: um Muro de Berlim que associava a esquerda e o comunismo à ideia de repressão, a que se podia responder com uma mensagem positiva e fácil de passar (todos queremos ser livres).

O que acontece, porém, é que embora esta ideia possa ter dado alguns resultados imediatos e no campo superficial e volátil da política eleitoral, amarrou a direita a um mantra que não só a torna coxa, mas também a torna trouxa, sempre prestes a ser enganada. Porque há gerações e gerações educadas apenas nesta ideia – o grande propósito da direita é defender a liberdade -, e que nem se apercebem de que não têm nada para propor; que olham com orgulho para si próprias, por exibirem grande largueza de carácter ao permitir que “opiniões contrárias” (como se houvesse contrário de zero) tenham poder de decisão, por não fazerem “política do gosto”, e que julgam convictamente que, como a política da direita é a da liberdade, estão a fazer política de direita ao deixar a esquerda governar a seu bel-prazer.

Note-se que há pouca coisa tão degradante, humilhante, tão embrutecedora, como lidar com o mundo cultural por esses municípios fora. Não, não é um mundo de papões de extrema-esquerda a estraçalhar Camões num ódio iconoclasta; até por isso, é triste ver a maneira como o debate se processa. O mais grave que a esquerda produziu na cultura não foi o radicalismo de alguns teatros e as propostas de desconstrução disto e daquilo; isso poucos vêem, nenhuns percebem, e mesmo depois de desconstruídos e desossificados os Camões e os Eças continuam inteiros, pelo que não parece haver grande problema em que uns maduros prolonguem pela idade adulta as suas brincadeiras com LEGO e as julguem importantes; o mais deprimente é a versão aguada de tudo isso, que é a mais disseminada e a mais difícil de erradicar porque dela não se pode dizer que é um escândalo, ou que é uma vergonha. Não é, está simplesmente errada, embora não com muita força, e é perpetrada por professoras de liceu e bibliotecárias de meia-idade sorridentes e bem-intencionadas, que arranjaram forma de transformar a cultura, as artes e os espetáculos que ninguém via em versões festivas de burocracia municipal, observados pastosamente pelas únicas pessoas sobre as quais a Administração tem um poder minimamente coercivo: os alunos de liceus.

A cultura, hoje, é uma rede de teatros ocupados ora por companhias itinerantes com agilidade burocrática para ocupar espaços públicos, ora por festivais literários em que ninguém parece ter grande ideia da relação entre exibir um escritor num mostruário e o fomento da leitura, ora por activismos dançáveis. Para tudo isto, há apenas um público: os alunos, arrastados das escolas para os auditórios em idade adolescente porque só adolescentes esfomeados conseguem engolir pastelões monumentais àquele ritmo, num exercício inútil e humilhante para todos.

Ora, este teatrinho ridículo é que é o grande legado das esquerdas na cultura: um mundo de funcionários simpáticos, convencidos de que toda a cultura é boa e importante porque é cultura (é o resultado da abolição das hierarquias e de um juízo sério e despudorado sobre o que é bom e o que é mau), de que como é boa e importante deve ser ensinada – como se a própria cultura fosse toda imediatamente acessível, e não fosse precisa preparação e educação do gosto para haver alguma utilidade em assistir a um Stoppard ou mesmo ao Judeu a que se assistia no antigo, do século XVIII, Teatro do Bairro Alto – o que faz da cultura uma pastelada infantil e sempre pedagógica, dedicada ao público que será forçado a assistir ao que lhe puserem à frente.

É este o legado da esquerda, de uma esquerda mais vasta, não partidária, mas mental, na cultura, e não parece haver grande vontade de o contrariar. Mas o que vale é que vão mudar uns directores.

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