O Grande Terramoto de Lisboa do Ano da Graça de 1755 |
«Quanquam animus meminisse horet, luctuque refugit. Incipiam!»
Tradução: Embora minha mente estremeça com o pensamento e se retraia de tristeza. Vou começar!
«Crudelis ubique»
Tradução: Cruel em todos os lugares.
«Luctus, ubique Pavor, et plurima Mortis Imago!»
Tradução: Luto generalizado, medo em todos os lugares e muitas imagens de morte!
«Apocalypticus!»
Tradução: Apocalíptico!
«Parece que a população estava toda absorta com a ideia que era o Dia do Juízo Final [o Fim do Mundo]; e desejando, portanto, empregar-se em boas acções, tinham-se coberto de crucifixos e santos; homens e mulheres, sem distinção, durante os intervalos entre os abalos [as réplicas do tremor de terra] estavam quer a cantar ladainhas [ou litania; é uma forma de oração católica curta e com invocações aos Santos, à Virgem Maria ou à Santíssima Trindade, com interjeições como: «Rogai por nós!»; «Tende piedade de nós!»; «Ouvi-nos!». A palavra ladainha deriva do grego «litaneía» e do latim «litania», significando oração, súplica ou rôgo, em busca de intercessão, usada no culto católico, levando os fiéis-crentes a um estado espiritual de imersão na fé, introspecção e devoção] quer, num fervor de zelo, a atormentar os moribundos com cerimónias religiosas; e sempre que a terra tremia, bradavam «Misericórdia!» Todos de joelhos, nos tons de voz mais dolorosos que se possam imaginar [das emoções-reacções psicológicas da população]. O receio, por conseguinte, de que o meu estado [o narrador-relator encontrava-se ferido, vítima do terramoto] pudesse incitar a sua piedade [compaixão, no sentido de religiosidade, e consequentes práticas religiosas católicas, sendo o contador um cidadão inglês que vivia em Lisboa, que professava a fé-religião protestante, o que provocaria um choque de valores e axiologia cristã entre a Reforma Protestante e a Contra-Reforma Católica] numa altura como esta, em que todo o Governo se achava paralisado [da inacção provocada pela comoção e medo que o terramoto trouxe] e era possível adivinhar que viragem o seu zelo furioso [devoção religiosa] podia tomar contra esse pior dos criminosos, o «Herege» [o não crente católico; aquele que confessava-revelava a fé protestante; logo, uma pessoa que professava uma crença, fé ou prática religiosa devota contrária à doutrina ou aos dogmas – do grego, dógma, que significa de opinião e acreditar naquilo que se pensa ser a verdade inquestionável e indiscutível; a verdade revelada – do catolicismo estabelecidos, no caso, e em contexto religioso, aquele que segue-convoca uma heresia: ser protestante e não católico]! Fez-me recear a aproximação de qualquer pessoa. Junte-se igualmente a isto, que o Cais da Pedra [que significa um cais construído em pedra, não sendo específico para este ou aquele cais em concreto, mas uma designação geral aplicada a vários cais em pedra, na Lisboa ribeirinha setecentista (século XVIII), significando o embarcadouro (cais, porto) e a muralha que o rodeia; rodeava. O primeiro cais da pedra de que há registo, localizado no Terreiro do Paço, foi mandado construir pelo rei D. Manuel I e terminado por D. João III], adjacente a esta praça [o Terreiro do Paço, também conhecido como Praça do Comércio; na época, em 1755, aquando do Grande Terramoto, o maior cataclismo natural jamais acontecido na Europa, a praça-zona era conhecida como Paço da Ribeira – Baixa de Lisboa, junto ao rio Tejo, uma das maiores praças europeias – que significava-afirmava o poder real e o centro administrativo da cidade de Lisboa, capital do reino de Portugal e dos Algarves, título adoptado pelo rei português D. Sancho I e mantido pelos seus sucessores até ao século XVI], já se tinha afundado e o mínimo avanço da água submergir-nos-ia a todos. Passei cerca de duas horas em tais considerações, durante as quais, o Sr. Forg e toda a sua família tinham vindo para a praça e se juntaram à família do Sr. Graves. As chamas estavam quase defronte […] Verifiquei que a Sr.ª Graves era de opinião corrente [colectiva] de que se tratava do último dia [o Dia do Juízo Final, o Fim do Mundo]; e, ao tentar convencê-la do contrário, ela disse-me que era de pouca importância para nós, já que as chamas estavam mesmo a aproximar-se das lojas de pólvora no lado oposto e ela esperava que explodissem a qualquer momento. Este novo terror [horripilante horror] impediu-me de continuar a falar e aguardámos todos o acontecimento silenciosamente [à espera do destino, das explosões devastadoras e mortais], […] embora houvesse três explosões, umas sucedendo imediatamente às outras com um grande estrondo, não foram acompanhadas, pelo que conseguimos saber, de qualquer prejuízo [humano, morte(s)]».
(The Lisbon Earthquake of 1755 – British Accounts – O Terramoto de Lisboa de 1755 – Testemunhos Britânicos – Um relato do que aconteceu ao Sr. Thomas Chase, em Lisboa, no Grande Terramoto: escrito por ele próprio, numa carta a sua mãe, datada de 31 de Dezembro de 1755, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Edição bilingue, 1990, pp. 86, 87, 99)
A abrir o nosso texto, até aqui a citação-testemunho e documento-carta da época, e porquê? Porque é uma fonte histórica coetânea que reúne os três elementos naturais que interagiram com o quarto elemento – a terra, que tremeu, tremeu e tremeu – e do caos caótico dos elementos que conflagraram no terrível Terramoto de Lisboa, no século XVIII, ano da graça de 1755, no dia 1 de Novembro, coincidente com o feriado religioso do Dia de Todos os Santos – «ironia das ironias» – um sábado, sismo cataclísmico – de grau-ponto 8,7 a 9,5 na escala logarítmica de Richter – sistema usado da vírgula decimal, que significa dos tremores de terra registados mais devastadores e intensos da História, de destruição catastrófica massiva total ou quase total – (como nota, deixar o registo de que o grau 10 nunca se verificou, sendo que teoricamente a escala richteriana pode ser matematicamente infinita; o maior impacto jamais assinalado, notório, verificou-se no Chile, a 22 de Maio de 1960, em Valdivia, com um sismo de magnitude confirmada de 9,5 na escala de Richter, sentido em várias partes do mundo e seguido de um maremoto-tsunami que se propagou-afectou (n)o oceano Pacífico, causando danos e vítimas no Havai, Japão e Filipinas) – que devastou a cidade e capital do reino de Portugal, seguido de um maremoto (sismo no fundo do oceano Atlântico que causou o deslocamento de uma grande massa de água), seguido de um tsunami (o efeito colateral do maremoto, uma série de ondas gigantescas libertadoras de grande quantidade de energia que se propaga pelo oceano e que ao chegar à costa provoca grande, grandíssima destruição), e de um-vários incêndios que deflagraram por toda a cidade e que lavraram-arderam por quase uma semana: 5 a 6 dias seguidos segundo os registos coevos. Donde – terramoto-maremoto-tsunami-fogo – a natureza em fúria-ímpeto e a cólera-ira rompante dos elementos naturais, evento que marcou a história da capital portuguesa e a arquitectura setecentista de reconstrução lisboeta e da Baixa, à imagem, estilo e semelhança pombalina.
De acordo com os especialistas-cientistas na matéria – sismólogos – é facto certo vir a acontecer no futuro vindouro, um novo e devastador terramoto em Lisboa, que pode sobrevir a qualquer momento e instante fatídico – infelizmente, parece que o relógio natura-terrestre está em contagem decrescente e vem-se aproximando a morte marcada com o destino; a possibilidade real de um novo terramoto, amplamente destrutivo em Lisboa, deve-se ao facto da localização da «cidade Alfacinha» na fronteira entre as placas tectónicas da Eurásia (massa de terra combinada da Europa e da Ásia, que são dois continentes conectados sem um oceano que os separe) e da Núbia (a maior parte da placa africana, que está em processo de separação da outra-restante porção da placa africana, podendo num futuro distante vir a dividir a África); placas que convergem lentamente, 4 a 5 mm por ano e a acelerar segundo medições de GPS mais recentes a indicarem um aumento anual da fissura de 7 mm por ano; a relação entre as placas tectónicas tem a ver com a condicionalidade-contingência da placa da Núbia se estar a separar da placa da Somália (África oriental) e da sua fronteira com a placa da Eurásia, a Sul, que é uma zona de convergência onde ocorre actividade sísmica e vulcânica e sismos, como é o caso do grande sismo de Lisboa de 1755 – acumulando tensão na crosta terrestre, que mais dia menos dia irá libertar-se. Embora a deformação seja lenta, é altíssima a probabilidade real de um novo e mega-terramoto em Lisboa, sendo muito preocupante a descoberta recente da fissura aumentada-activa. A localização de Lisboa numa área geologicamente activa, com duas grandes placas tectónicas a colidirem, não ajuda nada, mesmo nada, sendo que cientificamente é impossível prever e antecipar a data exacta do novo Grande Terramoto de Lisboa – «inevitável» – com a impossibilidade de nada poder(em) fazer os homens; resta a prevenção e a monitorização-medições atenta, atempada e antecipada de cenários-evacuação e da protecção civil em prontidão. Fazemos votos de adiamento ad infinitum de um novo cenário de terramoto em Lisboa – de infinitum dilationem –
Trazemos hoje aqui à colação, também num sábado, nesta data que assinala os 270 anos do dantesco e infernal Grande Terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755, o cenário histórico humanamente vivido há quase três séculos atrás na capital do reino de Portugal, sendo rei D. José I e Pombal Secretário de Estado do Reino: Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra entre 1750 e 1755; posteriormente, entre 1755-1777 Pombal foi Secretário de Estado dos Negócios Interiores do Reino, assumindo na prática e em plenitude a chefia do Governo, que corresponde ao actual cargo de Primeiro-Ministro. Sebastião José de Carvalho e Melo (um estrangeirado, foi um diplomata e embaixador de Portugal nas cortes de Inglaterra e Áustria; como ministro do rei D. José I,........