Anatomia de um Regresso Anunciado |
No grande teatro da política portuguesa, onde o ruído de fundo se tornou a banda sonora oficial, há momentos de uma clareza quase ofensiva. Pedro Passos Coelho falou. E o país, esse velho animal domesticado pelo barulho, foi forçado a admitir que andava a escutar a melodia errada.
Desmembremos o acontecimento, com a calma de quem sabe que a pressa é inimiga da precisão.
Passos Coelho é um corpo estranho no ecossistema político nacional. Uma anomalia. Incomoda porque a sua espinha dorsal não adquiriu ainda a flexibilidade gelatinosa que a sobrevivência no pântano exige. Incomoda porque o seu discurso não soa a um produto pasteurizado por comités de imagem e validado por “focus groups”. Incomoda, sobretudo, por pertencer a uma estirpe em acelerada via de extinção: a dos políticos que parecem ter lido um livro antes de escrever um discurso e que, suprema heresia, governaram antes de mandar bitaites.
E é por essa mesma razão que a sua existência se torna não apenas incómoda, mas absolutamente necessária.
É preciso recordar o óbvio, porque a memória nacional é curta e seletiva. Este homem não foi derrotado nas urnas. Não é um pormenor biográfico; é uma ferida mal cicatrizada no corpo de um sistema que adora construir consensos sobre os cadáveres dos seus inimigos. Venceu duas eleições. Contra a maré, contra a gritaria, contra a máquina de propaganda que já montava a “geringonça” antes de esta ter nome. Governou com a troïka a servir-lhe o pequeno-almoço e a oposição a envenenar-lhe o jantar. E cumpriu. Cumpriu o que prometeu, pagou o que devia, endireitou a postura de um........