Ainda vivemos na idade do ferro

Na era do wifi e da inteligência artificial, em que a economia é cada vez mais dominada por serviços como turismo e em que a indústria pesada pesa cada vez menos, é fácil acreditar no mito da desmaterialização da economia e das nossas vidas. Mas é realmente um mito, alimentado por modas ambientalistas ou por tecnodeslumbrados. A nossa economia da informação não está, nem estará isenta de limitações e necessidades materiais e energéticas. É natural. Nenhum ser vivo consegue sobreviver sem ir buscar energia e recursos ao meio ambiente e ter algum impacto nele. Qualquer caminho realista para a transição energética não dispensa grandes investimentos em inovação, em infraestruturas críticas e na sua proteção, e numa gestão estratégica de acesso a matérias-primas críticas.

O projeto de investigação em que tive a oportunidade de participar nestes últimos dois anos foca-se nos vários desafios, inclusive geoestratégicos, da transição energética na Europa. Foi uma parceria pioneira da Fundação Francisco Manuel dos Santos e da Brookings Institution, baseada em Washington D.C. (em que, a partir desta semana, serei investigador sénior não-residente), o tipo de internacionalização de que precisamos. Todos podem ler os estudos que daí resultaram e tirar conclusões mais informadas, se tiverem a coragem moral para enfrentar alguns factos inconvenientes. Partilho aqui algumas das conclusões que eu tirei, com particular atenção às implicações geopolíticas a que dou prioridade nesta coluna.

Um dos desafios fundamentais que enfrentamos na Europa é a nossa dependência energética e em matérias-primas críticas ter sido instrumentalizada por adversários, da Rússia até ao Irão. Mas também corremos o risco de isso acontecer entre aliados cada vez menos alinhados. A opção da Europa pelo gás dos EUA em detrimento do gás russo explicava-se por uma maior segurança de abastecimento, sem coerção política indevida. Será que podemos estar seguros disso com um Donald Trump que deixa claro que não quer saber de alianças? Isto também significa que não só as energias renováveis, mas também o petróleo e o gás podem representar um risco........

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