Que sentido faz aceitar que o insulto é lícito? |
Assistimos, na passada semana a uma atitude totalmente condenável de um jogador de futebol que, de uma forma cobarde, escondendo a sua boca, insultou um seu adversário.
E fê-lo da pior maneira possível, insultando as suas características de ser humano de uma forma racista, demonstrando a sua total falta de consciência como ser humano igual a todos os outros em direitos e em deveres.
Muito bem, as organizações desportivas tentam ser educativas nestas matérias e foi muito interessante assistir à forma correcta como o árbitro dessa partida resolveu o assunto, não tendo uma prova directa da agressão de que recebeu queixa, foi exemplar no seu procedimento.
Não deixa de ser curioso que, sem questionar a importância do combate e da educação relativamente ao comportamento racista que, num jogo de futebol, como em todos os restantes desportos, qualquer outro tipo de insulto seja aceite, inclusivamente muito frequentemente quando é dirigido aos árbitros, que são os representantes da autoridade nesses eventos.
A sociedade tem vindo a assumir uma total brandura relativamente a estes comportamentos de falta de respeito entre as pessoas e que cada vez mais acabam por atingir os representantes da autoridade.
Mais ainda, chegamos hoje a encontrar agentes da autoridade que se permitem também utilizar insultos e faltas de respeito na relação com os cidadãos.
Nos tempos que se seguiram à revolução, com a introdução da democracia muitos houve que consideravam que, depois de anos de uma vivência numa sociedade politicamente controlada, era do direito democrático tudo ser permitido e, por isso também o insulto era aceite como agente dessa democracia.
Mas passados todos estes anos e depois de termos aprendido que a liberdade de cada um deve acabar no momento em que afecta a liberdade dos outros, não se compreende como se permite mostrar publicamente, em locais que são frequentados em enorme número por jovens em fase de educação, que esses insultos não sejam imediatamente repreendidos e castigados, até pelo efeito educativo que tem uma tal atitude.
Um jovem que vê um jogador a insultar racisticamente outro jogador, compreende, porque assistiu a uma postura correcta por parte do representante da autoridade, que essa atitude é condenável, inaceitável e fica com a consciência de que não pode repetir.
Já quando assiste aos restantes insultos durante todos os jogos, assume que essa atitude de insultar os outros, incluindo a autoridade, é uma atitude aceitável, permitida e mesmo demonstradora de uma certa glória de o fazer.
É hoje comum abrir um canal de televisão e ouvir nas notícias que um jovem agrediu a sua namorada, ou que agrediu os seus pais e é ainda mais comum encontrar a associação entre criminosos e as claques desportivas.
Será que não entendemos que a permissividade leva a este tipo de comportamento e que estamos a criar uma sociedade que se guia pelo desrespeito pelo outro e pela própria sociedade.
É bom, de facto, que já exista um entendimento sobre o errado que é insultar alguém pela cor da sua pele, mas é pena que não compreendamos que também é muito errado insultar quem quer que seja e que não se constrói uma sociedade baseada no insulto.
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