Vendaval, S. A. |
Se GLUP, S. A. era o momento em que o automobilista português era sugado na bomba, detenhamo-nos agora sobre o momento em que, já devidamente abastecido, o cidadão decide cometer a imprudência de usar a estrada.
E descobre que a mobilidade em Portugal não é um direito económico; é um processo de cobrança em várias fases, com validação sucessiva, arredondamento regulamentar e recibo no fim. A Brisa chama-se Brisa, mas, para quem passa na portagem, o fenómeno aproxima-se mais de um Vendaval. Não uma aragem. Um Vendaval financeiro. O Vendaval dos nossos bolsos. Vendaval S. A.
Convém começar pelo ponto filosófico, porque sem ele tudo o resto é apenas contabilidade. Uma concessão de serviço público não existe para humilhar o utilizador. O Estado entrega a exploração de uma autoestrada a um privado para garantir investimento, manutenção, previsibilidade e qualidade. Não a entrega para criar um regime em que o automobilista paga ao concessionário, paga IVA ao Estado, financia a rede no combustível, suporta custos administrativos se falhar uma janela de pagamento e, no fim, ainda é convidado a admirar a elegância do sistema. Uma concessão deve beneficiar o consumidor. Entre nós, demasiadas vezes, beneficia primeiro a concessionária, depois o Estado e só em terceiro lugar, por distração ou exaustão, quem conduz.
Na rede Brisa, a regra oficial é simples e quase poética na sua frieza: a taxa de portagem resulta da multiplicação de uma tarifa unitária por quilómetro pelos quilómetros percorridos, acrescida de IVA e arredondada para o múltiplo de 5 cêntimos mais próximo. É uma fórmula limpa, impecável e administrativa, como todas as coisas que tiram dinheiro com bons modos. Em 2026, o trajeto Lisboa–Porto na A1 passou para 25,05 euros para veículos ligeiros. Como a A1 mede 296,4 quilómetros, isso equivale a cerca de 8,45 euros por 100 quilómetros. 8,45 cêntimos por quilómetro. Traduzido para linguagem sem assessores: não é uma portagem ocasional; é uma renda de circulação.
Quem queira defender este sistema costuma recorrer ao velho repertório nacional: “lá fora também se paga”. Sim, mas não da mesma maneira, nem com a mesma........