O barril é global, o litro é nacional |
Há respostas que esclarecem. Há respostas que corrigem. E há respostas que, ao tentarem corrigir, acabam por confirmar o essencial da crítica. A reação da Galp ao artigo GLUP, S.A. pertence a esta terceira família: é tecnicamente cuidada, institucionalmente polida, útil em vários pontos; mas não desfaz o problema central. Antes o torna mais nítido.
O problema dos combustíveis em Portugal nunca foi apenas a Galp, nem apenas o Estado, nem apenas o barril de petróleo, nem apenas a bomba de gasolina. É a combinação de todos esses elementos: fiscalidade pesada, rendimento nacional baixo, estrutura de mercado concentrada, integração vertical, barreiras à entrada, opacidade parcial na formação dos preços, descontos de leitura difícil, margens variáveis e uma transmissão nem sempre simétrica das subidas e descidas dos referenciais de custo.
Em português simples: o automobilista português não paga apenas gasolina. Paga um sistema.
E esse sistema tem uma virtude extraordinária: quando alguém o critica, cada responsável aponta para outro elo da cadeia. O Estado aponta para a geopolítica, as empresas apontam para os impostos, os reguladores apontam para a metodologia, as associações apontam para o Governo, e o consumidor fica a olhar para o talão, com a sensação desagradável de que todos têm uma parte da razão e ninguém tem a conta inteira.
A comparação com Espanha não chega
Uma das defesas habituais do setor é a comparação com Espanha. E há aqui uma verdade que deve ser reconhecida: em determinados períodos, Portugal esteve abaixo de Espanha no preço antes de impostos. A Galp tem razão quando sublinha esse ponto.
Mas essa verdade não encerra a discussão. Só a estreita.
A comparação bilateral com Espanha pode ser favorável a Portugal e, ainda assim, Portugal continuar relativamente caro no conjunto europeu. Segundo a ERSE, no primeiro trimestre de 2025, Portugal ocupava a sétima posição entre os países da UE-27 com gasolina 95 simples mais cara antes de impostos. O preço médio nacional antes de impostos estava 4,6 cêntimos por litro acima da média da UE-27. No gasóleo simples, Portugal surgia na 12.ª posição, também acima da média europeia, ainda que por uma margem menor.
No segundo trimestre de 2025, a situação não desapareceu. Pelo contrário: na gasolina, Portugal passou para a sexta posição entre os países mais caros antes de impostos, com preço 5,0 cêntimos por litro acima da média da UE-27. No gasóleo, ficou na 11.ª posição, continuando acima da média europeia.
Isto significa que a frase “Portugal está abaixo de Espanha antes de impostos” pode ser verdadeira e insuficiente ao mesmo tempo. É verdadeira no plano bilateral. É insuficiente no plano europeu.
Portugal pode estar abaixo de Espanha e, simultaneamente, figurar entre os países relativamente caros da União. Não há contradição. Há apenas uma escolha de comparação. E, quando se escolhe a comparação mais conveniente, a realidade fica menos falsa, mas também menos completa.
O barril não tem salário. O consumidor tem.
Outra resposta frequente é a de que o preço do barril de petróleo não está indexado ao poder de compra de cada país. É uma evidência. O Brent não pergunta ao comprador se vive em Lisboa, Madrid, Paris,........