Cisma e Igreja Alemã: pode Deus ser melhorado?
Cada século possui os seus ídolos. O nosso não os esculpe em pedra: fabrica-os com palavras. Chama-lhes tolerância, evolução, e salvação. Cada uma destas ideias contém uma verdade. Mas uma verdade parcial, retirada do seu lugar e transformada em regra absoluta, pode tornar-se uma mentira.
A tolerância, que devia impedir a perseguição injusta, converte-se facilmente na obrigação de aprovar tudo e todos. A evolução, que descreve mudanças na natureza e o crescimento do conhecimento humano, transforma-se no dogma de que tudo o que vem depois é melhor do que aquilo que estava antes. A salvação, que no cristianismo significa libertação do pecado e da morte, converte-se num projeto humano para salvar o planeta, a sociedade, e por fim, a própria Igreja, até daquilo que Cristo lhe ensinou.
Assim nasce a tentação religiosa do nosso tempo: se tudo evolui também a verdade deve evoluir; se tudo deve ser acolhido também o pecado deve ser reformulado; se o mundo precisa de ser salvo talvez seja preciso salvá-lo do rigor da lei de Deus.
Na Igreja surgiram duas respostas opostas a esta pressão cultural. Uma abraça a mudança até querer rever a doutrina. A outra absolutiza a sua própria leitura da Tradição até se considerar autorizada a desobedecer à autoridade viva da Igreja. O Caminho Sinodal alemão representa a primeira tentação; a Fraternidade Sacerdotal São Pio X representa a segunda.
2 O Caminho Sinodal alemão foi lançado depois da publicação, em 2018, do estudo “Abuso sexual de menores por padres católicos, diáconos e membros masculinos de ordens religiosas no âmbito da Conferência Episcopal Alemã — Estudo Mannheim-Heidelberg-Gießen” (MHG).
A crise exigia uma resposta sem ambiguidades: reconhecer os crimes, ouvir e reparar as vítimas, punir os culpados, afastar os encobridores, reformar os mecanismos de governo, e impedir que o mal se repetisse. O raciocínio deveria ter sido simples. Primeiro: o abuso de menores já era condenado pela moral cristã e pela lei canónica. Segundo: o encobrimento também violava deveres claros de justiça, verdade e proteção dos inocentes. Terceiro: a crise não nasceu da ausência de normas, mas da sua violação e da cobardia de quem não as aplicou. Logo, a conclusão coerente seria exigir maior fidelidade à lei moral e melhor governo da Igreja.
O Caminho Sinodal tomou, porém, outra direção. Partindo de pecados que não foram combatidos com firmeza, passou a questionar partes da moral sexual que nada tinham que ver com a pedofilia. Uma crise causada pela transgressão da lei foi usada para justificar a revisão da própria lei. Em vez de erradicar o pecado, parte da reforma passou a consistir em diminuir o número de comportamentos a que se chama pecado.
Esta é a contradição fundamental. A Igreja alemã reconheceu que falhara porque não combatera o mal mas, em vez de se limitar a corrigir a sua falta de coragem, propôs também corrigir o diagnóstico moral. O médico, que não aplicara o tratamento prescrito, concluiu que o problema estava na definição da doença.
A misericórdia pressupõe a verdade sobre o bem e o mal. Só há perdão quando existe uma falta a perdoar; se uma ação é moralmente errada, a misericórdia não consiste em declará-la boa, mas em acolher a pessoa, perdoá-la e ajudá-la a viver de outro modo. A dignidade da pessoa permanece intacta, mesmo quando os seus atos são objeto de um juízo moral.
O Caminho Sinodal não se limita a pedir maior respeito, prudência pastoral ou melhor acompanhamento. Propõe também que determinadas ações deixem de ser consideradas pecado e sugere que a recusa de abençoar certas relações pode ser «impiedosa». A consequência lógica é que o ensinamento recebido seria menos misericordioso do que a posição agora proposta.
Isto não significa atribuir más intenções aos participantes, muitos dos quais procuram certamente responder a sofrimentos reais. Trata-se apenas de examinar a lógica das propostas. Quando um ensinamento é considerado injusto ou discriminatório por declarar determinados atos moralmente errados, a sensibilidade contemporânea passa a funcionar como critério superior à doutrina recebida.
É neste sentido que se pode falar de uma tentativa de «melhorar» Deus. As passagens da Escritura incompatíveis com a nova moral tendem então a ser reduzidas ao seu contexto histórico. O ensinamento de Cristo sobre a indissolubilidade do matrimónio, por exemplo, poderia ser apresentado como produto de uma sociedade antiga. Mas Cristo não se limitou a repetir os costumes do seu tempo: remeteu para a ordem da criação e julgou esses costumes. Se admitirmos que o seu ensinamento moral deve ser corrigido pelos conhecimentos da nossa época, deixamos de interpretar a revelação e começamos a substituí-la.
A verdadeira misericórdia não humilha, não exclui nem reduz ninguém aos seus atos. Cristo protege a mulher acusada de adultério, restitui-lhe a dignidade e oferece-lhe um começo novo. Mas não transforma o adultério em fidelidade. A misericórdia cristã conserva simultaneamente a dignidade da pessoa e a verdade moral.
O Catecismo pode ser esclarecido, desenvolvido e reformulado; as disciplinas eclesiásticas também podem mudar. Mas uma coisa é explicar melhor a mesma verdade e outra é afirmar o seu contrário. Declarar primeiro que determinados atos são objetivamente desordenados e afirmar........
