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A paz não está no mapa

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08.09.2026

À primeira vista, a Guerra da Ucrânia deveria estar a aproximar-se das condições clássicas de uma negociação. Depois de mais de quatro anos de combate, nenhuma das partes parece capaz de alcançar uma vitória decisiva sobre o adversário. A Rússia continua a avançar, mas sem ritmo suficiente para converter ganhos táticos em decisão estratégica. A Ucrânia demonstrou capacidade para impedir a conquista total do país, mas não para restaurar, por meios militares, a integridade plena do seu território.

O principal obstáculo à paz não está, contudo, na linha por onde passará um eventual cessar-fogo. Fixá-la será difícil, doloroso e politicamente explosivo. Mas é concebível. A dificuldade maior começa depois dela: que configuração de segurança terá a Ucrânia no dia seguinte?

Para Kiev e para os seus aliados europeus, a experiência acumulada desde 2014 retirou qualquer ilusão sobre a viabilidade de uma Ucrânia desguarnecida. Um Estado ucraniano militarmente frágil permaneceria exposto à pressão russa e dependeria, em cada crise, da improvisação político-militar dos aliados.

Uma paz duradoura exigiria, por isso, forças armadas robustas, defesa aérea avançada, indústria militar própria, armamento ocidental, apoio em matéria de informações militares e garantias externas suficientemente credíveis para dissuadir Moscovo de lançar uma nova invasão.

Do ponto de vista ucraniano, isto não é maximalismo; é a condição mínima da sobrevivência nacional.

Mas é rigorosamente aqui que se forma o problema. Aquilo que Kiev considera indispensável à sua segurança é precisamente o que Moscovo apresenta como uma degradação da sua própria segurança. Uma Ucrânia fortemente armada, articulada com os sistemas militares ocidentais e eventualmente coberta pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) representaria, para o Kremlin, a consolidação junto da fronteira russa da configuração estratégica que procurara impedir através da guerra.

Nada disto equipara, moral ou juridicamente, a situação das partes. A Rússia violou a integridade territorial da Ucrânia e lançou a invasão em grande escala de 2022; a Ucrânia exerce o direito de defesa do seu território internacionalmente reconhecido. Uma coisa é identificar a responsabilidade pela agressão. Outra, distinta, é compreender o mecanismo estratégico que hoje dificulta uma cessação estável das hostilidades.

Este é o paradoxo central do dilema de segurança: as condições que Kiev considera indispensáveis para uma paz segura aproximam-se precisamente da configuração que Moscovo interpreta como derrota estratégica.

O paradoxo estratégico

O principal objetivo estratégico de Moscovo era impedir a integração militar da Ucrânia no Ocidente; nesse ponto, a guerra produziu precisamente o resultado inverso.

A Ucrânia de hoje está incomparavelmente mais integrada no sistema militar ocidental do que a Ucrânia de fevereiro de 2022. Recebe armas, treino, informações, sistemas de defesa aérea, artilharia, blindados, mísseis de longo alcance, drones e aviões. Possui uma experiência de combate que poucos exércitos europeus podem reivindicar. E reconstrói a sua indústria militar em crescente associação com os seus parceiros.

Existe, porém, um limiar ainda não transposto: o Artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte, a cláusula de defesa coletiva da OTAN.

A diferença é decisiva. Uma nova ofensiva russa contra a Ucrânia pode provocar nova mobilização financeira ocidental, novas sanções, novas entregas de armamento e uma nova vaga de apoio político. Mas não ativa automaticamente as obrigações de defesa coletiva que decorreriam de uma agressão contra um Estado-membro da OTAN.

A entrada formal da Ucrânia na Aliança alteraria precisamente esse ponto.

Pode por isso dizer-se que, na lógica estratégica de Moscovo, a guerra já não visa apenas contrariar a ocidentalização militar da Ucrânia — entretanto largamente consumada — mas impedir que essa integração adquira a proteção jurídica e estratégica de uma garantia de defesa coletiva.

Esta distinção ajuda também a enquadrar antecipações europeias sobre eventuais confrontos entre a Rússia e a OTAN. Em junho de 2026, o primeiro-ministro Keir Starmer afirmou que, segundo a avaliação britânica, poderia haver um ataque russo contra a OTAN já em 2030. A fórmula é significativa: não........

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