Portugal e a Inteligência Artificial 

Fala-se muito de inteligência artificial em Portugal. Mas entre o palavreado entusiástico e a realidade concreta existe um abismo que deveria preocupar qualquer cidadão atento ao futuro do país.

A China investe milhares de milhões em infraestruturas de IA e tem um plano para ser líder nesta área vital em 2030. Portugal, entretanto, contenta-se com documentos vagos, grupos de trabalho que se arrastam, e uma postura que oscila entre o deslumbramento acrítico e a paralisia burocrática.

A inteligência artificial não é apenas mais uma tecnologia — é, provavelmente, a mais profunda e acelerada transformação que a humanidade vai enfrentar. A eletricidade levou décadas a transformar as sociedades; a internet, cerca de vinte anos. A IA está a comprimir esse ciclo para anos ou talvez meses. Mas o que a distingue verdadeiramente não é a velocidade — é a natureza. Pela primeira vez, não estamos apenas a criar ferramentas que ampliam as nossas capacidades físicas ou que processam informação mais depressa. Estamos a criar sistemas que raciocinam, que aprendem, que tomam decisões, que geram conhecimento novo. Sistemas que começam a tocar naquilo que sempre considerámos exclusivamente humano: a inteligência, a criatividade.

A Estónia, país onde vivo, tem pouco mais de um milhão de habitantes, mas tornou-se o caso de estudo que deveria envergonhar qualquer responsável político português. Não é apenas o e-Residency ou os serviços públicos digitais que impressionam — é a abordagem sistémica e a velocidade de execução. O programa “Kratt” — nome inspirado numa criatura do folclore estónio — estabeleceu um quadro nacional para assistentes virtuais baseados em IA em todos os serviços públicos. Não é um projeto-piloto nem uma experiência isolada: é uma transformação coordenada que permite aos cidadãos interagir com o Estado através de linguagem natural, 24 horas por dia.

A Estónia lançou um curso online gratuito, “Elements of AI”, desenvolvido em parceria com a Universidade de Helsínquia, com o objetivo declarado de formar 1% da população europeia em literacia básica de IA. O curso já foi traduzido para mais de 25 línguas e completado por centenas de milhares de pessoas. É gratuito, acessível, e parte de uma premissa simples mas revolucionária: a IA é demasiado importante para ficar confinada a especialistas.

A Finlândia foi mais longe e estabeleceu a meta de formar 1% da sua própria população — cerca de 55.000 pessoas — em fundamentos de IA. Atingiu o objetivo e ultrapassou-o. Não se trata de formar engenheiros ou cientistas de dados, mas de garantir que cidadãos comuns — professores, enfermeiros, funcionários públicos, reformados — compreendem o que é a IA, como funciona, quais são as suas limitações e implicações.

Singapura lançou o programa “AI for Everyone”, com cursos gratuitos para toda a população e incentivos financeiros para empresas que invistam em formação dos seus

trabalhadores. Os Emirados Árabes Unidos criaram um Ministério da Inteligência Artificial — não uma secretaria de estado, não um grupo de trabalho, mas um........

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