O monte que ninguém decidiu desfazer

Há um enigma com vinte e quatro séculos que a Comissão Europeia acaba de traduzir para linguagem regulatória. Chama-se paradoxo do monte e atribui-se a Eubulides de Mileto. A partir de que grão deixa um monte de ser um monte? Retira-se um grão e continua a ser monte. Retira-se outro, e ainda o é. Nenhuma subtração isolada o desfaz e, contudo, ao fim de muitas, o monte desapareceu sem que se consiga apontar o grão culpado. A pergunta parece um jogo de salão. É, na verdade, a descrição mais fiel do modo como uma ambição coletiva se dissolve.

A 17 de julho, Bruxelas apresentou a há muito esperada revisão do sistema de comércio de licenças de emissão para o período posterior a 2030. Os títulos falaram de simplificação e de alívio para a indústria. Quem soma os detalhes vê outra coisa. O fator de redução linear, o ritmo a que o teto de emissões desce todos os anos, abranda de 4,3 para 3,7 por cento entre 2031 e 2035, e para 1,7 por cento na segunda metade da década. A reserva de estabilização do mercado passa a retirar metade do excedente que retirava, de 24 para 12 por cento. O teto sobe em 250 milhões de licenças para acomodar remoções de carbono. Somam-se oitenta milhões de licenças gratuitas adicionais antes de 2030, seis mil milhões de euros em atribuição gratuita reforçada, uma porta aberta à compra de até 260 milhões de créditos internacionais e, dias depois, a recomendação para que os Estados poupem os importadores de........

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