Abrir a Porta da Arena Não Basta
Portugal habituou-se a repetir palavras bonitas. Inclusão. Diversidade. Acessibilidade. Igualdade de oportunidades. Soam bem em discursos políticos, em relatórios institucionais e em conferências académicas. Mas, demasiadas vezes, a realidade concreta das pessoas perde-se no meio da burocracia, das percentagens e do medo de dizer aquilo que é evidente.
Tenho deficiência auditiva. Entrei para a universidade em 1996, numa época muito diferente da actual. Existia o chamado contingente especial, mas não o utilizei. Tive receio de ser prejudicado, rotulado ou visto como alguém que teria “entrado por facilidade”. Entrei pelo regime geral. Fiz o meu percurso como tantos outros estudantes.
Na altura, o sistema era menos regulamentado, menos sofisticado, menos tecnológico — mas talvez, paradoxalmente, mais humano. Quando sentia dificuldades, falava directamente com alguns professores. Muitos demonstravam compreensão, sensibilidade e bom senso. Não existiam gabinetes de inclusão sofisticados, nem formulários intermináveis, nem uma obsessão quase matemática por percentagens de incapacidade. Existia sobretudo uma avaliação mais funcional da pessoa e das dificuldades reais que enfrentava.
Temos inteligência artificial, legendagem automática, microfones remotos, plataformas digitais, sistemas FM, implantes cocleares extremamente avançados e múltiplas tecnologias de acessibilidade que seriam........
