A hipocrisia da reforma
Há algo de profundamente contraditório no debate político português. Ouvimos diariamente discursos inflamados sobre justiça social, dignidade do trabalho, desperdício do Estado e defesa dos “portugueses esquecidos”. Fala-se de quem trabalhou uma vida inteira, de quem descontou décadas, de quem vive esmagado pelo custo de vida e pela carga fiscal. Mas quando chega o momento de transformar palavras em medidas concretas para aqueles que verdadeiramente enfrentam maiores dificuldades ao longo da vida laboral — as pessoas com deficiência — o silêncio instala-se. Ou pior: surgem abstenções, adiamentos, desculpas técnicas e soluções minimalistas.
Portugal continua a exigir a milhares de pessoas com deficiência o mesmo esforço contributivo e as mesmas metas de idade de reforma que impõe à população em geral, como se todos partissem das mesmas condições físicas, sensoriais, psicológicas ou funcionais. Como se décadas de desgaste acrescido, discriminação no acesso ao emprego, desemprego involuntário, precariedade e custos permanentes associados à deficiência fossem detalhes irrelevantes.
E é aqui que o debate se torna moralmente desconfortável. Porque muitos dos que passam a vida a denunciar desperdícios do Estado, pensões milionárias, estruturas redundantes, “tachos” partidários ou má gestão da Segurança Social, raramente colocam no centro da discussão aqueles que vivem diariamente limitações reais e objectivas. Há sempre........
