Quando a política se torna culto: risco do fundamentalismo |
A política ocidental atravessa um momento verdadeiramente inquietante. A esquerda radical e a direita radical entrincheiraram-se em campos opostos, mas simétricos, ao ponto de o diálogo se ter tornado quase impossível.
Há uma sensação física, quase visceral, que reconheço instantaneamente quando entro nas redes sociais ou assisto a debates parlamentares nesta nova legislatura. É um aperto no estômago que me transporta para a minha vida passada. Durante décadas, vivi dentro de uma estrutura mental hermética onde a realidade era binária: havia a “Verdade” (a nossa) e a “Mentira” (a de todo o mundo exterior). Não existia espaço para a dúvida, para a ambiguidade ou para a legitimidade do outro. O “outro” não estava apenas errado; estava moralmente corrompido.
Ao observar a reconfiguração política do Ocidente, temo que tenhamos permitido que esta mentalidade, tão típica de sistemas fechados, tenha transbordado para a praça pública e, em especial, para a política.
Convém ser claro desde já: isto não significa que todos os actores políticos, propostas ou riscos institucionais sejam equivalentes. Significa, sim, que os mecanismos psicológicos de pertença, exclusão e sacralização da identidade se tornaram perigosamente semelhantes em campos ideológicos opostos. E é isso que corrói a democracia por dentro.
O messianismo e a validação do ressentimento
À direita, é tentador reduzir o fenómeno ao fanatismo ou à ignorância. Mas........