Cresci sem Natal. Nunca pedi que o apagassem

Foi com estupefacção e alguma apreensão que li a notícia da retirada dos cenários de Natal que serviriam como fundo para as fotografias escolares, tão características desta altura do ano. A decisão da direcção do Agrupamento José Maria dos Santos, em Pinhal Novo, parece ter sido motivada pelo cumprimento do “objectivo de garantir que todos os alunos fossem tratados igualmente, independentemente de celebrarem ou não a quadra natalícia”.

De acordo com as notícias veiculadas, a directora Maria Pena terá explicado que “nem todas as famílias assinalam o Natal por razões culturais, religiosas ou pessoais e que, nesse sentido, a opção por um fundo neutro procurou criar um ambiente inclusivo para todas as crianças”.

Quando li isto, fiquei, como por vezes me acontece, a digerir a notícia em silêncio. Há temas que não pedem uma reacção rápida, mas reflexão. Este foi um deles.

O desconforto que senti não vinha de uma posição ideológica nem de um reflexo cultural. Vinha de um lugar mais profundo. Vinha da memória.

É que eu cresci sem poder festejar o Natal.

Digo isto hoje com alguma distância emocional, mas durante muitos anos foi uma frase carregada de tensão. Cresci num contexto religioso onde o Natal não era apenas ignorado — era activamente rejeitado como algo errado. Não se celebrava. Era apresentado como algo do qual nos devíamos manter afastados, enquanto “verdadeiros cristãos”.

Enquanto os meus colegas ficavam num frenesim com a expectativa da noite de Natal e com os presentes que iriam receber, eu aprendia a sorrir e a dizer que “não celebrava, porque o Natal era de origem pagã”. Não porque tivesse pensado seriamente sobre isso, mas porque me tinham ensinado assim. Tinha já o discurso interiorizado e assumia com convicção essa rejeição que, a princípio, foi imposta e depois passou a fazer parte de mim, com o ritual........

© Observador