Palavras sem obra: o risco de governar pela comunicação

Há uma tentação recorrente na vida pública contemporânea: a de colocar a comunicação política acima da própria ação governativa. Não como instrumento de explicação ou prestação de contas, mas como substituto da decisão e da execução. Num tempo dominado pelo ciclo noticioso permanente e pela tirania das redes sociais, muitos responsáveis políticos parecem acreditar que a narrativa pode anteceder, moldar ou até dispensar a substância. É um equívoco perigoso.

A comunicação é, sem dúvida, parte integrante da política. Governar implica explicar, persuadir, escutar e ajustar. Uma reforma estrutural sem pedagogia pública arrisca-se ao fracasso; uma medida necessária mal comunicada pode gerar desconfiança e resistência. No entanto, quando a comunicação deixa de acompanhar a ação e passa a ocupá-la, instala-se uma inversão de prioridades. Em vez de decisões sólidas seguidas de esclarecimento rigoroso, temos anúncios sucessivos, slogans eficazes e promessas mediaticamente calibradas, muitas vezes desligadas de um plano consistente.

Esta opção produz ganhos imediatos, mas custos duradouros. No curto prazo, domina-se a agenda, controla-se a manchete, neutraliza-se a crítica. No médio e longo prazo, porém, a ausência de resultados tangíveis corrói a credibilidade. Os cidadãos não vivem de conferências de imprensa nem de publicações estrategicamente cronometradas; vivem de serviços públicos que funcionam, de respostas eficazes aos seus problemas concretos, de políticas que produzem efeitos verificáveis. Quando a realidade não confirma a narrativa, a frustração instala-se e o descrédito alastra.

Mais grave ainda é o impacto na qualidade da democracia. Se a política se reduz à gestão de perceções, o debate público empobrece. Discute-se a forma em detrimento do conteúdo, a intenção declarada em vez da consequência real. A oposição passa a responder a frases feitas, e não a políticas estruturadas. Os cidadãos, por sua vez, tornam-se espectadores de um jogo retórico, distantes de decisões que deveriam ser escrutinadas com base em dados, metas e resultados.

A alternativa não é silenciar a comunicação, mas reconduzi-la ao seu lugar próprio. Comunicação e ação devem caminhar lado a lado, numa relação de coerência e responsabilidade. Primeiro decide-se com base em diagnósticos sólidos e objetivos claros; depois explica-se com transparência, assumindo riscos, limites e prazos. Quando surgem erros, corrigem-se e comunicam-se as correções com honestidade. Esta sequência não é apenas mais ética; é também mais eficaz.

Num regime democrático maduro, a força de um governo não se mede pela sofisticação da sua máquina de comunicação, mas pela consistência entre o que anuncia e o que concretiza. A política que privilegia a aparência pode conquistar aplausos fugazes. A que alinha palavra e ação constrói confiança. E é dessa confiança, paciente e exigente, que depende a estabilidade e a vitalidade das nossas instituições.

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